[PALESTRA] Entre a Ciência e a Imagem: Reconstruções Digitais da Vida, da História e da Memória

Cicero Moraes
3D Designer, Arc-Team Brazil, Sinop-MT, Brazil - Bachelor’s degree in Marketing, Dr. h. c. FATELL/FUNCAR (Brazil) and CEGECIS (Mexico) - Member of Sigma Xi, Mensa Brazil, Poetic Genius Society, and International Society for the Study of Creativity and Innovation (ISSCI) - Invited reviewer: Elsevier, Springer Nature, PLoS, and LWW - Guinness World Records 2022: First 3D-printed tortoise shell.
Data da publicação: 28 de novembro de 2025
ISSN: 2764-9466 (Vol. 7, nº 1, 2026)

Attention

O presente material trata-se de uma palestra, portanto, diferente dos artigos usuais publicados neste periódico, o texto será apresentado em primeira pessoa. Para manter o tom natural e compatível com a linguagem da apresentação, o autor optou por compor o mesmo sem auxílio de ferramentas de correção ou IA, o que torna possível a presença de erros de digitação ou de gramática. A escolha visa humanizar a obra, deixando explícitos os ruídos e imprecisões provenientes desta forma de criação. O evento se deu às 10 horas da manhã do dia 28 de novembro de 2025 no canal do Centro de Estudos do Instituto Oswaldo Cruz (atrelado à Fiocruz) e o vídeo pode ser acessado aqui. O texto serviu de base para a apresentação, esta mais sucinta e resumida. O objetivo deste material é compartilhar os dados de modo detalhado e auditável aos eventuais interessados.

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Fig. 18 Slide 1

Inicialmente gostaria de agradecer a todos pela honra da palestra, em especial à Dra. Marli Lima que em comunicação anterior me enviou o convite. Também agradeço aos mediadores o Dr. Ricardo Waizbort e ao Dr. Maurício Luz, por conduzirem a apresentação.

Participar de um evento que já teve grandes nomes da ciência e da cultura brasileiras faz com que o compromisso de um a boa apresentação seja intensificado. Espero que o conteúdo esteja à altura do padrão esperado e certamente me esforçarei significativamente para isso.

O assunto motivador para tal apresentação foi o artigo intintulado “Image Formation on the Holy Shroud—A Digital 3D Approach” [Moraes_2025_c] que teve uma significativa repercussão, não apenas no meio acadêmico ligado ao escopo, ou seja, a história medieval, mas também nos círculos religiosos, céticos e de interesse geral, pois foi amplamente pautado e comentado, convertendo-se no artigo mais influente da história do journal Archaeometry (Wiley-Oxford). No entanto, para se compreender como isso aconteceu, é importante contar a história anterior, que envolve não apenas muito esforço técnico e estudo, mas também o aspecto da humanidade envolvida. Uma pesquisa não se resume a aplicação de normas, ela traz consigo muito de quem executa e a palestra de hoje buscará revelar essa nuance, espero, que de modo bem sucedido.

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Fig. 19 Slide 2

A história efetivamente começa em 2011, na ocasião com 28 anos, me vi em uma situação assaz desagradável; fui visitar meus pais na casa ao lado da minha e acabei envolvido em um assalto. Rendido, fiquei por duas horas sob controle de dois assaltantes até que, ao me isolarem em um local, os dois indivíduos armados permitiram que eu reagisse dentro de um contexto bem próprio do momento, sem colocar a vida dos meus pais e sobrinho (que também lá estava) em risco. Mesmo eu estando desarmado, entrei em luta corporal com ambos que efetuaram um disparo que pegou de raspão na minha cabeça (Fig. 19). Assustados com a situação e vendo que eu ainda estava de pé, ambos empreenderam fuga deixando para trás alguns pertences.


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Fig. 20 Slide 3

Depois do ocorrido desenvolvi um quadro de ansiedade e depressão agudos, pois o choque foi imenso, uma vez que fiquei horas sob o controle dos assaltantes e outros membros da quadrilha do lado de fora, a história é longa e não me aterei a esses detalhes... é fato que quase perdemos a vida. Para lidar com essa situação decidi fazer algo que, como um bom nerd, sempre fiz, ou seja, estudar algum assunto e ter um bom foco nele. Naquele momento eu não tinha ideia do motivo de fazer isso, mas a resposta evidenciou-se anos depois. Como eu estava sem perspectivas no momento atual, resgatei das lembranças pueris de algo que então me apetecia. Em um programa de TV dos anos 1990, não recordo bem se era o Isto é Incrível ou o Acredite se Quiser, eu havia conhecido a técnica da reconstrução facial forense. Tratava-se de uma abordagem que, grosso modo, reconstruía a face do indivíduo a partir do crânio, colocando os músculos principais, algumas medidas projetadas e encapando a estrutura com o que seria o formato do rosto. Com dedicação e esforço e com a ajuda de livros e publicações, consegui executar meus trabalhos no meio digital (Fig. 20).

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Fig. 21 Slide 4

Já adiando que hoje a técnica evoluiu significativamente, por exemplo, já não uso mais a etapa da colocação dos músculos, as projeções são baseada em mensurações em tomografias de grupos populacionais, além disso também utilizo a complementação da deformação anatômica, que de modo simplificado é o ajuste de uma cabeça de um doador virtual até que o crânio deste se equipare aquele a ser aproximado... sim, o nome da técnica agora é mais compatível com o que de fato é uma aproximação facial forense (não reconstrução). Por último e coerente com o tempo atual, a inteligência artificial tem sido utilizada para ajudar no acabamento sem alterar a estrutura original, sob observação humana rigorosa, evidentemente.

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Fig. 22 Slide 5

Sempre há a dúvida acerca da precisão da técnica, então, como sabemos que ela é coerente com o rosto do indivíduo aproximado? Simples, além de estudos anteriores comparando a aproximação com a face real, também já trabalhei em casos com a polícia, a exemplo de um relato de caso publicado no Journal of Forensic Sciences (Wiley) [Baldasso_et_al_2020_c], acerca de um reconhecimento facial que levou a uma identificação. De modo a compartilhar com a comunidade, acadêmica e interessados, em 2015 escrevi um livro, junto com o Dr. Paulo Miamoto onde compartilhamos o passo a passo de tal técnica [Moraes_and_Miamoto_2015_c].

Note

Tive a oportunidade de contribuir em outros casos junto a polícias, a maioria de modo sigiloso, mas outros com registro em notícias, como no caso da investigação do óbito da mãe do menino Bernardo no Rio Grande do Sul.

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Fig. 23 Slide 6

Vou compartilhar então um padrão recorrente em outras situações que apresentarei no decorrer da palestra, o qual chamarei de Ciclo Criativo. Geralmente a questão é iniciada pelo interesse em determinado assunto a partir de um evento (O Interesse); este desenvolve um hiperfoco que começa a gerar bases mais sólidas de compreensão e o desejo por mais estudo, funcionando como um chamado ao mesmo (O Chamado). A partir de uma imersão no assunto que é apoiada pelo estudo e experimentação os resultados práticos começam a aparecer (O Estado de Fluxo). A etapa posterior é o compartilhamento dos resultados com o público, seja ele acadêmico ou de interesse geral e isso pode gerar um confronto, tanto por conta da falta de conhecimento dos que o recebem, quanto por desconfiança ou mesmo por mentenimento da narrativa/status quo. Esse feedback gera novas demandas de respostas, que forçam um melhoramento dos argumentos/técnicas ou uma resposta mais firme relacionada a refutação ou prova da eficácia do que foi exposto, propiciando um ambiente de estímulo intelectual (O Intelectualmente Estimulante). Uma fase pode realimentar outra ou mesmo gerar um novo ciclo criativo derivado, como se verá posteriormente.

No caso da aproximação facial o elemento que iniciou o processo foi o assalto, o estudo correu dentro o esperado com a absorção e replicação da técnica e a partir do resultado foram, até o momento, 150 faces aproximadas, algumas das quais abordarei mais à frente, assim como os episódios de confronto. Inicialmente estes se focaram no descrédito por parte de pesquisadores mais experientes que duvidavam que eu poderia de fato produzir material acadêmico, junto a polícia ou mesmo no contexto histórico, mas esses comportamentos na verdade instigaram a busca por tais validações e mais do que isso, pelas experimentações e testes. Assim, ficou evidente que a técnica poderia ser usada em outros campos.

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Fig. 24 Slide 7 - Apresentação da face de Santo Antônio em Pádua, Itália (10/06/2014).

O primeiro grande projeto que participei foi a reconstrução de 28 faces para uma mostra temporária prevista para ser inaugurada em Pádua. Seriam 23 faces relacionadas a evolução humana e 5 figuras históricas da cidade, dentre elas Santo Antônio, o casamenteiro. Eu fiz o trabalho sem saber de quem se tratava, apenas recebi o crânio, com os dados de que era um homem por volta dos 30-40 anos e de ancestralidade européia. Depois que eu gerei a face básica, me informaram que se tratava do santo. Ali tive uma ideia, a de que poderíamos fazer daquele evento algo amplamente difundido aqui no Brasil e, com paciência e diálogo, consegui viabilizar que a face fosse apresentada inicialmente aqui e posteriormente na Itália. Na ocasião fechei a pauta com o Fantástico da Rede Globo, uma matéria que teve ampla repercussão e, na Itália uma coletiva de imprensa ajudou com que o assunto fosse publicado em 24 idiomas ao redor do mundo. Esse projeto lançou as bases para um conceito que eu trabalharia posteriormente.

Note

O uso do número de idiomas no lugar de destacar grandes meios de imprensa ou o número total de notícias sobre o tema faz parte de uma abordagem que eu nomeei de Fator de Distribuição Linguístico (FDL). A solução se mostrou mais fácil de quantificar e revelava de forma mais precisa a amplitude da viralização do assunto, afinal, embora o inglês seja um idioma muito popular, poucos falantes de outras línguas têm proficiência nele e preferem consumir conteúdo em seus próprios padrões linguísticos. Assim, a força do FDL reside no contexto global, sem necessariamente indicar uma viralização concentrada em idiomas específicos.

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Fig. 25 Slide 8

Sobre a mostra envolvida, chamada de FACCE - i molti volti della storia humana, foi inaugurada em fevereiro de 2015 e face ao seu sucesso foi prorrogada. O evento rendeu publicação revisada por pares [Bezzi_et_al_2016_c], teve as imagens compartilhadas na Wikimedia Commons, o que fez com que fosse utilizada por muitos veículos de notícia e museus importantes (como o Museu de História Natural de Londres) e além disso, acabou em 2024 se tornando uma mostra permanente no novo Museu da Natureza e do Homem, da Universidade de Pádua, cuja história foi publicada no XXXIII Congresso Nacional da Associação Nacional de Museus Científicos (ANMS) da Itália [Carrara_et_al_2023_c].

Important

Dedicar-me a esses estudos e projetos contribuiu para que eu me recuperasse daquele trauma de 2011, a ponto de poder comentar sobre o fato posteriormente, sem que se convertesse em um estímulo psicológico perenemente desagradável. No entanto, uma década depois algo aconteceria que, traria novos desafios psicológicos em meio a um turbilhão de acontecimentos.

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Fig. 26 Slide 9

Ainda em 2014, com a diferença de poucas semanas, fui procurado por dois cirurgiões (Fig. 26), que gostariam de aprender a trabalhar com as ferramentas que eu usava, objetivando aplicar os conhecimentos nos seus campos. Conforme as aulas foram ministradas e as demandas apresentadas, evidenciou-se a necessidade de que ferramentas fossem adaptadas ou mesmo criadas para simplificar as necessidades do planejamento cirúrgico.

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Fig. 27 Slide 10

Aqui pode-se ver o cliclo criativo novamente funcionando: O interesse: As aulas de computação gráfica ajustadas para as ciências da saúde mostraram que tal caminho tinha as suas particularidades. O chamado: Como muitas das soluções demandavam adptação ou mesmo criação “do zero”, foi necessária uma dedidação significativa, alguém (nós) precisava fazer aquilo. O Estado de Fluxo: Ao resolver os problemas e demandas, novas abordagens forma desenvolvidas e aos poucos o campo foi desbravado, assim como protocolos foram criados, até serem apresentados em eventos ou grupos especializados. O Intelectualmente Estimulante: Ao se apresentarem os projetos piloto e os primeiros resultados, muitos especialistas e espectadores duvidaram ou até zombaram do que foi exposto, uma vez que tais soluções não eram amplamente publicadas e utilizadas. Esse clima de desconfiança e desrespeito acabou por instigar um aprimoramento das ferramentas.

Com o passar do tempo as aulas evoluíram para uma parceria acadêmica/técnica e dali para uma parceria comercial, onde organizávamos aulas para outros cirurgiões que se interessavam pela técnica. Brasília, São Paulo, Recife, Rio de Janeiro... muitas capitais receberam o treinamento e com o tempo percebemos que era necessária uma evolução técnica que simplificasse a experiência do usuário. Tal evolução aconteceu, mas retomarei esse ponto posteriormente.

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Fig. 28 Slide 11 - Grupo Animal Avengers, da esquerda para a direita: Matheus Rabello, Paulo Miamoto, Roberto Fecchio, eu, Sergio Camargo e Rodrigo Rabello.

No ano de 2015 as possibilidades relacionadas a saúde humana acabaram se estendendo ao campo veterinário. Uma equipe que seria nomeada Animal Avengers, em razão do sucesso do filme da Marvel e de nosso apreço por musculação e esportes, começou a ser formada e o primeiro desafio fora a criação de um bico de tucano impresso em 3D. Hoje a técnica é bastante comum, no entanto, há 10 anos era novidade no Brasil e resolvemos a questão utlizando a fotogrametria (digitalização 3D por fotos) e impressão baseada em openhardware. Embora muitos pensem que o primeiro tucano a receber um bico impresso tenha sido a costa-riquenha Grécia, a verdade é que Zequinha, como era chamado, foi o dententor de tal feito, pois ele recebeu o mesmo em julho e a outra em agosto. No slide (Fig. 28) é possível ver que Zequinha passou a se alimentar sozinho depois de receber a prótese, denotando que o procedimento foi um sucesso.

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Fig. 29 Slide 12 - Da esquerda para a direita: Gigi, Vitória, Hana, Verdinho e Giada.

Uma série de animais animais atendidos, tambném sendo muito os primeiros de suas espécies. O papagaio Verdinho [Dias_et_al_2016_c] que teve a rinoteca perdida, o corvo Giada (Itália), também perdeu a rinoteca e na imagem podemos ver que logo depois de receber a prótese passou a se alimentar. A cadela Hana recebeu um dente de cromo-cobalto, impresso no CTI Renato Archer de Campinas. A gansa Vitória perdeu a rinoteca e a gnatoteca, recebeu uma prótese [Moraes_et_al_2016_c] e perdeu-a, depois ajustamos para uma prótese menos estética e mais funcional; e a partir daí se recuperou bem e além de se alimentar, teve filhotes e o assunto viralizou dada a raridade. Também atendemos a arara Gigi, que recebeu um bico de titânio (também impresso no CTI), com significativa repercussão na mídia internacional, recebendo até reconhecimentos, dentre as melhores reportagens do ano de 2016 do Diário Catarinense e entre as histórias favoritas do mesmo ano no site 3DPrint.com.

Note

Vitória tem sua biografia na Wikipédia e em parceria com a Wikimedia Commons, o arquivo do bico que foi impresso em 3D, está disponível para visualização 3D intertativa e download naquela plataforma.

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Fig. 30 Slide 13

No ano de 2015 também trabalhamos no caso da jabota (jabuti fêmea) Freddy. Ela teve 85% do seu casco queimado em um incêncio expontâneo em Brasília, que fica no cerrado brasileiro, onde esses eventos são relativamente comuns. Naquele ano imprimimos o casco na cor branca, a exemplo do que fazíamos com as demais próteses, estávamos mais interessados na função do que na estética [Rabello_et_al_2016_c]. Mesmo assim o acontecimento teve significativa repercussão nacional, pois foi tema de uma matéria especial no Fantástico da Rede Globo. Em 2016 o casco de Freddy recebeu uma pintura e o caso viralizou internacionalmente. Em 2021 eu recebi um email do Guinness World Records, solicitando autorização do uso de imagem, pois eles colocariam o feito na edição de 2022, reconhecendo a peça como o primeiro casco de tartaruga impresso em 3D no mundo. Eu sequer sabia que o Guinness registrava essa tipo de feito, a priori pensei que se tratava de uma pegadinha, mas de fato era a empresa.

Note

Além de Freddy contar com a sua biografia na Wikipédia, é possível baixar de modo online tanto o casco 3D do doador digital utilizado como base, quanto o casco final dividido em quatro partes não retentivas e encaixáveis.

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Fig. 31 Slide 14

Conforme foi abordado anteriormente, de 2014 a 2015 houve uma fase de compreensão básica e experimentação focada na questão funcional e viablização das técnicas de planejamento cirúrgico. Aos poucos tudo foi se revolvendo e o protocolo recebeu lapidações que o tornaram mais funcional, seguro e elegante. Já em 2016 era evidente que se encontrava em uma fase amadurecida, como poder ser visto na imagem (Fig. 31), advinda de uma reportagem do site Techtudo, que mostra um conjunto de splints cirúrgicos (guia de posicionamento de osteotomias). Já naquela época evidenciava-se que os avanços de um campo ajudava o outro, ou seja, a abordagem dos guias pensados para as cirurgias em humanos era ajustada para o uso na medicina veterinária.

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Fig. 32 Slide 15 - Estapas da criação da prótese (à esquerda) e o biólogo Richard Rasmusen (à direita) posicionando o modelo final em Zazu durante as gravações do programa Sábado Animal.

O trabalho com o tucano Zazu sintetiza bem essa nova fase, pois como é atestado na imagem (Fig. 32), a reconstrução de uma tomografia computadorizada permitiu a observação estrutural e a visualização do trajeto da perfuração distante de regiões críticas. A esturtura de encaixe amadureceu e a exemplo daquela feita para a arara Gigi, também “segurava” o bico ao ter um amplo contato, ajudando no travamento de alguns eixos tridimensionais. Além disso, perfurações permitiriam a passagem de linhas fixadoras que “amarravam” a prótese ao remanescente do bico, ao passo que tais estruturas eram ocultadas pelo processo de finalização sobrepondo com cimento e pintura, fazendo com que a prótese também tivesse uma função estética.

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Fig. 33 Slide 16 - Prótese facial feita a partir de fotografias tiradas de um celular pela técnica de fotogrametria.

A precisão e a funcionalidade do planejamento cirúrgico e da prótese instigou outros profissionais de campos diversos a me procurarem, entre eles integrantes do atual Insituto Mais Identidade de São Paulo, que trabalham com pacientes oncológicos. Junto a essa equipe foi desenvolvido um protocolo baseado em fotogrametria e software livre, que aos poucos foi evoluindo, com desdobramentos que serão visto mais a frente, nesta apresentação.

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Fig. 34 Slide 17

Paralelo a todo esse desenvolvimento de novos protocolos, o número de alunos novos aumentava e com esse processo, também as demandas de simplificação da interface e comandos. Para um profissional de computação gráfica a série de comandos para se chegar a um resultado simples parece algo corriqueiro, mas para um iniciante qualquer tarefa, por mais simples que seja pode se converter em uma fonte de frustrações, posto que qualquer erro compromete o processo. Pensando nisso, em 2017 comecei a estudar a interface do Blender mais a fundo e a desenvolver um pequeno painel com botões que nada mais eram do que sequências de comandos encadeadas em uma tarefa, objetivando simplificar a vida do aluno. Aos poucos esse pequeno script, nomeado de OrtogOnBlender, se converteu em um respeitado sistema de planejamento cirúrgico e o que era quase puramente manual, atualmente está signficativamente automatizado e incrementado com novas tecnologias de inteligência artificial (IA).

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Fig. 35 Slide 18

Para resumir muito, o papel do OrtogOnBlender é permitir ao especialista fazer abordagens relacionadas a análise, planejamento e apresentação. Na maioria dos casos são cirgiões que utilizam a ferramenta para: 1) Importar uma tomografia computadorizada reconstruída em 3D (ossos e tecido mole), 2) Fazer osteotomias (cortes ósseos) em regiões mais seguras de modo a corrigir deformações estruturais ou problemas respiratórios, 3) Gerar guias de corte e posicionamento, 4) Imprimir os guias para usar em cirurgias.

Em casos de elevada complexidade e que envolvem mais especialistas, muitas vezes é feito um amplo estudo usando as ferramentas de reconstrução de voxel data, que são as fatias empilhadas das tomografias que juntas formam um objeto 3D como se fosse uma nuvem densa e com diferentes transparências e cores, de modo a permitir a visualização de estruturas pequenas e complexas como ossos finos e até veias. Além disso, depois de efetuar o planejamento, que pode ser refeito e ajustado até satisfazer as necessidades correntes, há a possibilidade de imprimir também a anatomia que receberá os cortes e ajustes, como no caso, imprimir o crânio e até testar os guias e abordagem antes da cirurgia, o que serve como treinamento extra, pois já havia sido feito no âmbito digital. Na prática isso melhora a segurança, dimiui o tempo do procedimento e permite que alguns problemas sejam resolvidos antes de aparecerem na cirurgia.

Na sequência alguns casos serão apresentados, buscando ilustrar o uso do OrtogOnBlender por parte dos cirurgiões.

Note

O OrtogOnBlender é gratuito e de código aberto, não necessitando o pagamento de licença; além disso roda no Window, Linux e Mac. Por se tratar de uma solução robusta e sem custos, os especialistas podem investir mais em treinamento e equipamentos, como impressoras 3D de filamento que são instaladas nos consultórios/hospitais permitindo que lá se crie um laboratório completo, envolvendo desde a confecção e dinâmica digital até a materialização dos guias.

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Fig. 36 Slide 19 - Planejamento cirúrgico sob a orientação do Dr. Everton da Rosa.

O caso do slide (Fig. 36) é de uma cirurgia ortognática, cuja intervenção buscou expandir a via respiratória, ao passo que mantém uma boa harmonia facial. Pode-se ver que a tomografia computadorizada foi reconstruída isolando-se os ossos e o tecido mole; nos ossos que estão na parte superior esquerda o operador (eu) fez as osteotomias e posicionou-as segundo os protocolos de corte e cefalometria publicados. O OrtogOnBlender permite a vizualização da deformação no tecido mole em tempo real e no caso da imagem, um corte foi feito para demonstrar a parte interna da estrutura antes e depois da movimentação dos cortes (superior direita). A simulação acontece em um ambiente digital e a ligação do digital com o mundo real são justamente os splints e guias. Os splints servem para posicionar os cortes em um espaço tridimensional no mundo real segundo a escolha da abordagem, ou seja, se o cirurgião vai deslocar primeiro o corte na mandíbula ou na maxila. No caso do mento, vê-se que foram criados dois guias, um de corte e um de posicionalmento, ambos ancorados nos dentes da mandíbula.

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Fig. 37 Slide 20 - Pré e pós cirúrgico digitais (simulação).

Além de visualizar o ajuste estrutural no tecido mole, reconstruído a partir de uma tomografia computadorizada, também pode-se digitalizar a face utilizando a fotogrametria, ou seja, a digitalização 3D a partir de uma sequência de fotos. O exemplo do slide (Fig. 37) mostra uma digitalização com o rosto da paciente em estado de sorriso, na parte superior o pré cirúrgico digital e na parte inferior, o pós-cirúrgico digital. Embora o objetivo primário da cirurgia tenha sido o melhoramento respiratório, evidencia-se que o aspecto estético também foi impactado por tal procedimento. No exemplo, por ora, trata-se apenas do campo digital.

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Fig. 38 Slide 21

Na comparação entre o digital e o real (Fig. 38), evidencia-se que, embora o tecido mole tenha um comportamento que possa diferir um pouco daquele planejado, neste caso o resultado final assemelhou-se significativamente.

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Fig. 39 Slide 22

Para avaliar a precisão da projeção digital em relação a cirugia real, alguns estudos foram efetuados, tanto pela nossa equipe [Cunha_et_al_2022_c] quanto por alunos e usuários [Lobo_et_al_2019_c] e os resultados se mostraram compatíveis entre si, documentando o fato que o planejamento equiparava-se à cirurgia real. Além disso, o OrtogOnBlender também saía-se muito bem em relação a programas pagos que eram a referência da área. No entanto, o nosso objetivo não é bater de frente com outros softwares, mas oferecer soluções aos usuários, de modo que algumas delas acabam por comunicar-se com outros softwares em um ambiente de produção fluída e complementar, não de concorrência.

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Fig. 40 Slide 23

Dentro do sistema há um submódulo chamado RhinOnBlender, próprio para o planejamento de rinoplastia. Esta sistema oferece ferramentas de ajuste estrutural via escultura digital, medidas em pontos específicos, relatório na interface para avaliação dos espaços e ângulos e a confecção de um guia para o posicionamento e avaliação durante a cirurgia [Sobral_et_al_2021_c].

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Fig. 41 Slide 24

É comum que especialistas que trabalham com cirurgia ortognática também atuem em outros campos de procedimentos na região facial, como a recuperação de grandes traumas cranianos. O uso do OrtogOnBlender também se estende a essas demandas (Fig. 41).

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Fig. 42 Slide 25

A redução de fraturas é uma abordagem que foi bastante beneficiada pela solução [Facanha_et_al_2019_c], uma vez que, como poder ser visto no passo-a-passo do slide (Fig. 42), uma tomografia com a fratura pode ser reconstruída em 3D, passar por uma segmentação e posterior organização dos fragmentos seguindo a anatomia e uma vez que esteja ajustado é possível criar um guia de encaixe com entradas de parafusos, que serão colocados para segurar os fragmentos até prendê-los em uma placa de metal, que por sua vez já é dobrada na impressão 3D da mandíbula do pós operatório digital, que também serve de teste para o encaixe do guia. Isso reduziu o tempo do procedimento e aumentou a sua segurança e precição.

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Fig. 43 Slide 26

Outra área contemplada com ferramentas próprias para a criação de estruturas foi a de próteses faciais humanas com o desenvolimento do submódulo +IDonBlender (do Instituto Mais Indentidade), chegando ao ápice da aplicação não apenas o uso de próteses geradas a partir de negativos e pintadas manualmente, mas também peças impressas diretamente em 3D com material colorido e flexível [Salazar-Gamarra_et_al_2022_c].

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Fig. 44 Slide 27

A ferramenta de fotogrametria é muito versátil, a ponto de permitir a digitalização 3D a partir de vídeos, o que foi adaptado e utilizado em um projeto de documentação no campo da urologia, para capturar estruturas penianas em um curto período te tempo, visando a avaliação esturtural e medições de ângulos [Nacimento_et_al_2023_c].

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Fig. 45 Slide 28

Essa versatilidade se estende também à outras ferramentas como a de confecção de guias, que pode ser adaptada para a modelagem de implantes em regiões críticas que demandam grande precisão, como o exemplo de assoalho da órbita presente no slide (Fig. 45).

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Fig. 46 Slide 29

Outro uso significativamente corrente da ferramenta é no planejamento de retalho cirúrgico, onde, grosso modo, parte mandíbula com comprometimento estrutural é substituído por partes do osso da fíbula (Fig. 46).

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Fig. 47 Slide 30

Os casos acima ilustram algumas, mas não todas as possibilidades de uso do OrtogOnBlender. Atualmente a solução está presente em 33 países (Fig. 47) distribuídos em 4 continentes e em muitas clínicas e hospitais como o Wolfson Medical Center (Holon, Israel), University Clinical Hospital in Opole (Polônia), Valencia University Clinical Hospital (Espanha), Policlinico di Bari (Puglia, Itália), Mechnikov Hospital Dnipro (Ucrânia), Avisenna Specialist Hospital (Malásia), National Hospital of Odonto-Stomatology in Hanoi (Vietnã), Beneficência Portuguesa Hospital (São Paulo, Brasil), Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Serviço de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, São Paulo, Brasil), Hospital Erasto Gaertner - Cancer Center (Curitiba, PR, Brasil), National Institute of Neoplastic Diseases (Peru) e Hospital Santiago Oriente - Dr. Luis Tisné Brousse (Santiago, Chile), entre outros.

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Fig. 48 Slide 31

Embora o OrtogOnBlender possua uma rica documentação oficial, depois de um tempo ficou evidente que a evolução da ferramenta era constante e multifacetada, com a participação de usuários e alunos. Isso abriu a possibilidade de uma nova vertente, uma publicação própria em formato de capítulos. Assim como eu havia me apetecido pela técnica de reconstrução facial há decadas, lá por 1990 assisti a um episódio do desenho infantil Muppet Babies intitulado, The Daily Muppet onde as personagens se organizaram para criar um jornalzinho e aquilo me encantou profundamente. Sempre quis fazer algo com aquele comprometimento e aproveitei a memória afetiva para entrar em ação. Já adiantando a história, o projeto aconteceu e está sendo muito bem sucedido. O nome da publicação é OrtogOnLineMag, que vem de magazine, mas também flerta com magnífico, magnânimo, maggiore e afins. Até o momentos foram publicados 12 volumes, sendo dois anuais, contabilizando 72 artigos. Muitos desses artigos, que têm status de preprint já foram publicados em journals revisados por pares, ou sendo citado em artigos revisados, fazendo com que a publicação seja um repositório de técnologia robusta. Em face a posterior viralização, que fez com que o nome OrtogOnLineMag fosse citado em 29 idiomas, e em face a relevância, robustez e efetividade no uso do conteúdo em casos reais, além da amplitude cultura, pode-se afirmar com segurança que a publicação se trata de um journal de facto.

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Fig. 49 Slide 32

Seguindo exemplos anteriores, vou descrever o Ciclo Criativo no caso da OrtogOnLineMag. O Interesse: Houve a necessidade de expandir a documentação do OrtogOnBlender, inserindo novidades e instigando a participação dos alunos e usuários no processo. Haviam interessantes ferramentas de produção, modernas e adaptadas ao presente momento e que poderiam servir de base para o projeto editorial. O Chamado: Ao ler sobre os conceitos e ferramentas, vi que efetuar a publicação era possível, então estudei formas de aplicar isso, inicialmente foquei em ferramentas gratuitas e de código aberto como o sistema Sphinx, que permite a partir de um código fonte (texto plano com referências) publicar em html (online) e LaTeX/pdf (impresso, old school). Além disso também fui atrás de códigos como ISBN, ISSN e DOI para simplificar a catalogação e citação. O Estado de Fluxo: Depois do primeiro artigo publicado no segundo semestre de 2020 a produção não mais parou e ela se mostrou tão funcional que, o segundo artigo, que abordava a geração de superfícies não-retentivas (objetivando a produção de guias cirúrgicos e afins) acabou inspirando a escrita do terceiro artigo sobre microscopia de força atômica (MFA), composto em parceria com pesquisadores da Embrapa e disponível na sua base de dados de pesquisas (BDPA). Com o tempo os mais variados assuntos (relacionados à computação gráfica) foram explorados e algumas publicações como aquelas relacinadas a aproximação facial viralizaram absurdamente, fazendo com que o projeto estourasse a bolha técnica e chegasse ao grande público. O Intelectualmente Estimulante: Com a viralização veio a hostilidade, principalmente de entes acadêmicos que alegavam invalidade dos achados ou irrelevância técnica por se tratar de uma publicação preprint. Esse foco no status e não no conteúdo gerou uma série de debates públicos que serão abordados mais a frente e que tornaram o processo ainda mais robusto, transparente, auditável e replicável.

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Fig. 50 Slide 33

Um dos últimos artigos publicados ilustra bem a abordagem envolvida, pois trata de uma nova ferramenta desenvolida para o OrtogOnBlender, o Sistema Unificado de Criação de um Crânio Composto, grosso modo, é um sistema onde o usuário apenas indica onde está a tomografia computadorizada e as digitalizações intraorais, e o software se encarrega de importar as malhas 3D dos ossos e do tecido mole, segmentar partes como os dentes, mandíbulas, nervos e afins, além de alinhar a cabeça e posicionar os modelos intraorais em relação ao dentes da tomografia. Esse artigo foi publico em conjunto com alunos e usuários que, além de usarem o OrtogOnBlender também desenvolvem suas próprias ferramentas e as soluções que eles criaram foram absorvidas e adaptadas ao OrtogOnBlender. O que eu fiz foi unificar todo o sistema e fazer com que ferramentas diferentes e abordagens diferentes gerem uma saída única que pode ser vista no esquema gráfico do passo a passo (Fig. 50). Como comentado anteriormente o OrtogOnBlender passou de uma ferramenta praticamente manual, para uma praticamente automática, fazendo com que o usuário, geralmente um cirugião, gaste menos tempo com configurações relacionadas a viabilzação da esturtura digital e foque mais no que faz de melhor: avaliar a anatomia e propor soluções cirúrgica (ou não). Percebe-se que, além do reconhecimento a quem contribui com a ferramenta, no caso dos artigos, também atesta-se a grande transparência de tudo o que é publicado, pois mais do que ser uma solução de código aberto, é uma ferramenta com documentação amplamente disponível em modo texo, se o usuário tiver disposição ele vai entender como funciona e isso tem se mostrado um fato, dado o número significativo de pessoas que aprendem por si só como utilizá-la. O reconhecimento que envio a esses usuários identificados é um certificado oficial, fechando o ciclo de aprendizado-desenvolvimento-compartilhamento-aprendizado tão comum no meio open source.

Note

Durante o processo de desenvolvimento do OrtogOnBlender XP eu criei um botão de teste que, além de fazer a importação da tomografia computadorizada e dos modelos intraorais, também efetuava as osteostomias e configurava a intensidade de deformação do tecido mole ao movimentar os ossos cortados. A ferramenta funcionou de modo assombroso para os padrões de então, uma vez que, na versão anterior os usuários precisavam dedicar um tempo significativo no processo, podendo passar de uma ou duas horas, dependendo da habilidade e complexidade. Agora isso é feito em alguns minutos. Na verdade o sistema tem até, em tese, condições de fazer um planejamento sozinho, no entanto, o elemento humano é importantíssimo, pois embora muito se tenha publicado e protocolado, o conhecimento do cirurgião e a personalização do atendimento ainda são necessários. Felizmente as novas tecnologias estão permitindo, como foi abordado, que o especialista dedique seu tempo cuidando mais do paciente e observando suas características próprias, do que se esforçando para viabilizar a digitalização 3D da consulta.


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Fig. 51 Slide 34

Outro aspecto importante dessas publicações são os testes de funcionamento, baseados no imenso banco de tomografias computadorizadas fornecidas pelos alunos, geralmente com arquivos que apresentaram algum tipo de problema no passado. O que eu faço é colocar o OrtogOnBlender para rodar essas tomografias e arquivos, buscando as piores condições de teste ao compartilhar uma nova ferramenta. Muitos destes testes ultrapassam aqueles efetuados pelos desenolvedores das bibliotecas que foram utilizadas, funcionando como um elemento validador externo de quem cooperou com a ferramenta, uma vez que coopera com os mesmos “de volta”. Eu costumo brincar dizendo que se o OrtogOnBlender fosse um carro, ele seria bastante robusto, rodando bem tanto em cidades estruturadas (planejamentos com protocolo estabelecido) quanto em regiões selvagens e com terreno muito irregular e imprevisível (abordages técnicas em desenvolvimento, sem protocolo estabelecido). Esse tipo de artigo/estudo não é focado na viralização do conteúdo, mas na robustez e funcionamento das ferramentas, independente de onde e como sejam utilizadas e trabalhar nelas traz uma imensa satisfação, tão grande quanto um reconhecimento formal.

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Fig. 52 Slide 35

Em relação a iportância técnica e cultural da OrtogOnLineMag, um artigo que ilustra bem como a mesma tem sido reconhecida em campos diversos está relacionado com a aproximação facial de Beethoven, a partir do crânio exumado no séc. XIX. O estudo, assim que compartilhado foi anexado ao catálogo técnico da biblioteca da Beethoven Haus-Bonn, a instituição oficial que cuida do seu legado na Alemanha. Esse é um exemplo de reconhecimento evidencia o status de journal de facto por parte da OrtogOnLineMag.

Atrelar assuntos diversos em trabalhos que têm como base a aproximação facial, diferente do que possa parecer em alguns momentos, tem sido bastante constante e sempre tem um contexto envolvido. No caso da genialidade presente no estudo de Beethoven sobre, tenho estudado-a a partir de autores especializados que compartilham seus conhecimento por livros e artigos revisados por pares (já troquei email com um deles, que foi bastante cordial e informativo). Atualmente estou envolvido com discussões técnicas acerca desse campo, como a questão que trata de QIs exacerbados e os limites dessa medida, tanto no contexto estatístico quanto a questão de atrelá-la a genialidade. Participei de matérias (Jornal Extra e reportagem de capa da Galileu de Out. de 2025) que indicam impossibilidades de QIs ultra-altos e também escrevi sobre o limite dos testes padronizados em aproximadamente 139 [Moraes_2025b_c], pois acima disso perde-se a robustez estatística. Graças a esses estudos fui aceito como membro associado da International Society for the Study of Creativity and Innovation (ISSCI). Portanto, não se trata apenas de falar sobre um tema, mas compartilhar com todos algo que surgiu de uma entrega, uma significativa imerssão no assunto cuja motivação inicial será esclarecida mais adiante.

Então, o que tenho feito é trazer para o campo da aproximação facial assuntos relacionados, aproveitando a oportunidade para colocá-los em evidência e discussão pública. Vou ilustrar, por exemplo, alguns trabalhos que tangenciaram o campo da saúde humana/história publicados inicialmente em formato preprint/release, passaram por revisão por pares e se converteram em referência ou base para estudos socialmente importantes.

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Fig. 53 Slide 36

A aproximação da mulher de Skriðuklaustur (Islândia) foi publicada como artigo na OrtogOnLineMag. Vi naquilo uma oportunidade de abordar a questão histórica da sífilis, o seu surgimento na América, a exportação para a Europa e outros continentes, via grandes navegações e o recrudescimento da doença a partir da década de 1990, acendendo alertas na saúde pública. Curiosamente eu havia esculpido o busto de Girolamo Fracastoro (aquele que nomeou a condição), em razão de uma mostra com apoio do Ministério da Saúde em 2021 intitulada “Sífilis - História, Ciência, Arte”. Curiosamente tal busto ilustra o catálogo da mesma. Em face a ilustração da doença em estágio terciário no rosto, o trabalho (inicialmente compartilhado na OrtogOnLineMag) viralizou a nível global, e foi adicionado, como objeto de mídia permanente no Museu de Skriðuklaustur. Trata-se de um trabalho originalmente idependente, utilizando um crânio sob licença Creative Commons, disponilizado pela instituição que depois absorveu o resultado em seu acervo, fechando o ciclo de cooperação. Posteiromente um artigo revisado por pares foi publicado [Moraes_et_al_2024_c], concluindo o projeto com “chave de ouro” e refutando por si só a abordagem preconceituosa de que um artigo preprint não tem valor unicamente pelo seu status.

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Fig. 54 Slide 37

O Homem de Łekno (Fig. 54), advindo de um cemitério medieval na Polônia, foi o primeiro indivíduo com acondroplasia (nanismo) a ter a face reconstruída na história da técnica. Nós compartilhamos um preprint em um repositório e o trabalho viralizou internacionalmente colocando o tema em pauta. Tempos depois ele passou por revisão por pares e foi publicado [Moraes_et_al_2024b_c]; além de estar presente na lista das 50 Reconstruções Faciais Incríveis da Live Science.

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Fig. 55 Slide 38

Com a múmia Minirdis (2.300 AP) foi levemente diferente. Embora pouco se tenha abordado sobre isso em matérias compartilhadas, o fato é que eu senti “o chamado” de modo um tanto compulsivo nesse caso, e costumo comparar o que se passou com o desfecho do filme Ecos do Além de 1999, com Kevin Bacon como a personagem principal. No filme ele é atormentado por visões sobrenaturais, começa a escavar a sua casa até encontrar um corpo de um assassinato e fazer justiça pela vítima. No meu caso não houve nenhuma manifestação de ordem fantástica, no entanto, ver um jovem em um caixão de adulto me despertou significativo interesse. Ao reconstruir a estrutura craniana e comparar o volume cerebral, descobri que mesmo se tratando de uma criança ou pré adolescente de 12-14 anos, o volume estava a 3,6 desvios padrão acima de um crânio adulto; além disso a envergadura era significativamente maior do que a altura e conjunto de dados indicava, além de megalencefalia, com quadro sugestivo para a síndrome de Sotos. Depois da análise, evidenciou-se que a rotação da máscara funerária não foi algo natural, mas deliberado, viabilizando o fechamento da estrutura, dada a significativa dimensão do crânio, mesmo em um caixão (aparentemente reaproveitado) de um adulto. O trabalho preliminar foi compartilhado em forma de um release para a imprensa e repercutiu na mídia nacional e internacional. A pesquisa foi submetida para um períodico, foi revisada por pares e publicada [Moraes_et_al_2024c_c].

Note

O caso de Minirdis foi um dos que inspiraram o desenvolvimento da medida tripla para aferição de volume do endocrânio/cérebro, de modo não invasivo e amplo, abordando desde neonatos até adultos. O objetivo inicial é a triagem de casos de megalencefalia e/ou microcefalia e uma calculadora online já se encontra disponível.

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Fig. 56 Slide 39

Outro projeto que merece menção é o da Mulher de Zlatý kůň, um fóssil de aproximadamente 43 mil anos atrás, descoberto na República Tcheca. Iniciei os trabalhos de modo independente, utilizando dados disponíveis em publicações de terceiros e a partir do levantamento foi possível aproximar a face. Esta também foi compartilhada inicialmente na OrtogOnLineMag e teve uma massiva repercussão, com matérias publicadas em 41 idiomas; além de estar presente na lista das 50 Reconstruções Faciais Incríveis da Live Science. Posteriormente o trabalho passou por revisão por pares e foi publicado no journal Anthropological Review [Moraes_et_al_2024d_c]. Para fechar o ciclo de modo bem sucedido, a imagem agora faz parte de uma mostra permanente no museu (Casa da Natureza) do parque no qual o fóssil foi descoberto e encontra-se próxima ao mesmo para observação dos visitantes. Eu tive a honra de visitar o local e isso foi noticiado no próprio perfil do museu no Facebook.

Um trabalho que seguiu o mesmo caminho foi o do crânio Mladeč 1 (~31.000 AP), encontrado na caverna de mesmo nome também na República Tcheca. A aproximação facial, publicada na OrtogOnLineMag, foi reconhecida formalmente como o rosto oficial e hoje está em mostra permanente no museu da caverna. Além disso, a instituição responsável criou um concurso para escolher o nome e o resultado final foi Mlada, que significa jovem (no feminino), em tcheco. O sucesso foi tamanho que organizaram outro concurso, desta feita de redação, sobre a melhor história e que será escolhida ainda em 2025.

A Administração de Cavernas da República Tcheca emitiu uma carta de agradecimento à minha pessoa pelos trabalhos com as duas faces, selando o reconhecimento institucional.

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Fig. 57 Slide 40 - Foto: Da esquerda para a direita o ministro da cultura Salvador del Solar, a estátua do Senhor de Sipan, o arqueólogo Walter Alba (descobridor do túmulo de Sipán) e eu.

Não poderia deixar de citar o projeto relacionado ao Señor de Sipán, um importante rei moche, conhecido como o “Tutancamon das Américas”. Nesse caso o processo foi o ciclo completo, tendo a apresentação da face a partir de um release de mídia, que repercutiu mundialmente, depois o trabalho gerou a presença de sua estátua em tamanho real em uma mostra permanente e finalmente uma publicação com revisão editorial (Wiley) que cita a obra [Moraes_and_Dias_2018_c]. Eu tive a honra de estar no Peru, tanto na apresentação da face digital, quanto na inauguração da estátua em tamanho real no museu do sítio arqueológico Huaca Rajada, em cerimônia com o ministro da cultura do Peru, Salvador del Solar e o arqueólogo Walter Alva, organizador e chefe das escavações que levaram à descoberta de Sipán. Lá recebi um honroso reconhecimento do governo regional por conta da repercussão e importância do trabalho.

Note

No Peru também trabalhei na aproximação da face da Dama de Quatro Tupus, considerada uma das mais importantes descobertas arqueógicas de 2016, cuja face apresentamos na sede do Ministério da Cultura daquele país e a imagem também está em mostra permanente no museu da Zona Arqueológica Caral.

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Fig. 58 Slide 41

Ter o trabalho reconhecido e amplamente compartilhado é realmente muito bom e satisfatório, principalmente por fazer parte da história do país envolvido; mas nem todo mundo aprecia que isso aconteça, com agravamento se tal situação coloca em risco algo estabelecido, mesmo que seja mais percepção do que necessariamente ligado à realidade dos fatos. Explicarei na sequência alguns episódios de confronto assimétrico onde tive que lidar com forças institucionais significativas e adaptar-me a essa nova realidade de “reconhecimento hostil”.

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Fig. 59 Slide 42

No ano de 2021 tive a honra de reconstruir o rosto de Ludmila da Bohemia, uma santa tcheca que fora avó de um rei medieval muito célebre, que também se converteu em santo. Na ocasião, utilizei como referência o crânio projetado por um célebre antropólogo tcheco, o Dr. Emanuel Vlček, Ph.D. (1925–2006); que na ocasião valeu-se de um remanescente da calvária e alguns dentes, para reconstruir a peça completa. A reconstrução facial teve uma ampla repercussão na mídia nacional dada a importância da personagem histórica. O fato é que, um membro da Academia de Ciências da República Tcheca, junto a uma antropóloga da Universidade Masaryk (que já havia feito pesquisa no Brasil), compuseram uma matéria depreciativa à minha pessoa e a equipe em uma revista de circulação nacional. A matéria repercutiu no meio acadêmico e foi compartilhada amplamente por arqueólogos e entusiastas dos departamentos de Arqueologia da Academia de Ciência.

Até aquele momento eu não tinha o hábito de criar refutações públicas, mas frente à tentativa de queima de reputação, vinda de indivíduos com alta notoriedade acadêmica, me vi obrigado a fazê-lo. Na época focamos em três pontos principais: 1) Reconstruções faciais com remanescentes são possíveis e documentadas; 2) Que diferente do que eles afirmavam, eu já havia publicado sobre aproximação facial em um journal conceituado, inclusive com reconhecimento da vítima; 3) Que o laboratório chefiado pela especialista da Universidade Masarik usava uma reconstrução que eu havia feito, na página de abertura, além de indicar um artigo meu (sobre aproximação facial!) como literatura acadêmica recomendada em um curso promovido pela instituição.

Note

Oferecemo-nos para um debate público em rezão de uma viagem que eu faria naquele ano (2021) à Tchéquia, mas o especialista envolvido declinou da proposta, além de me bloquear em seu perfil da mídia social, ialegando que eu estava tentando queimar a sua reputação publicamente... quando ele na verdade fez isso, sem sequer conhecer o meu trabalho. Posteriormente aprendi que publicar documentos é o caminho mais eficiente para um debate como esse.

Posteriormente, junto a usuários e alunos do OrtogOnBlender (com publicações na OrtogOnLineMag), desenvolvi uma metodologia de projeção de elementos faciais baseadas em mensurações em grupos de tomografias computadorizadas divididas por ancestralidades e a partir disso evidenciou-se que seria possível projetar um crânio completo a partir de remanescente, desde que tivessem as partes ancoráveis. Felizmente o crânio de Ludmila contava com um parte importante destas e isso forneceu a base para o nosso estudo que foi submetido para um journal, revisado e publicado [Moraes_et_al_2023_c], finalizando o processo de refutação pública aos especialistas tchecos e fortalecendo a questão de que preprints são parte importantes do processo de pesquisa. A vitória foi significativa, mas isso, no lugar de acalmar os ânimos das instituições envolvidas, na verdade até aguçou-os, como se verá adiante.

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Fig. 60 Slide 43

A questão é que, durante aquele ocorrido na República Tcheca, eu estava pessando pela temida crise da meia-idade e confesso que foi a pior coisa que já aconteceu na minha vida, mesmo não envolvendo violência física. O problema era maior, pois mexeu com a mente e reconfigurou-a de algum modo, quase como uma metamorfose psíquica. Curiosamente quem identificou a crise foi a minha esposa e, como faço em todos os campos de atuação, ativei o Ciclo Criativo para entender o que estava acontecendo. Fiz uma ampla revisão de literatura (com a ajuda do meu psicólogo), mas desta feita, para entender o que acontecia comigo. Já adiantando, descobri algumas coisas, uma que sou o que chamam de pessoa altamente sensível, ou PAS, no sentido de se comportar como um sensor humano para uma série de coisas e com uma profundidade sentimetal e observacional que fez com que a crise, ou metanoia, fosse mais intensa. Também vi indícios de que eu poderia ser uma PAH/SD, ou uma pessoa com altas habilidades e superdotação, o que está intimamente ligada com a alta sensibilidade. Fui atrás de uma especialistas, fiz os testes e finalmente fui identificado. O mesmo motor que trouxe a inquietação e profunda tristeza, também trouxe a resiliência para lidar com isso. Seguindo a questão do compartilhamento de informações, publiquei ainda em 2021 sobre o que se passou comigo, e tal documento serviu como base uma reportagem especial no jornal O Globo e pela repercussão eu soube de muita gente que foi ajudada pelo relato.

Então meio que resumindo a questão, a dedicação aos estudo, o amor pela pesquisa me ajudou a superar o que viria pela frente, pois a “briga” com outros especialistas estava apenas começando, e escalando.

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Fig. 61 Slide 44

Em 2023 trabalhei em uma reconstrução que fez um sucesso estrondoso a nível mundial, chegando a ter matérias veiculadas em absurdos 47 idiomas e mexeu até com o panorama cultura no Egito. Trata-se de Nazlet Khater 2, um fóssil de 35 mil anos encontrado naquele país. A aproximação coincidiu com o período em que estavam promocionando a série Cleópatra da Netflix, retratada como uma mulher negra o que levantou grande crítica por parte dos residentes naquele país. A versão colorida da minha aproximação mostrava um homem negro, e por conta disso, começou a se ventilar, principalmente por parte de uma coluna assinada pelo Dr. Zahi Hawass, célebre e polêmico egiptólogo, que o trabalho era fortemente baseado na cultura woke dos EUA. Quando discussão chegou ao seu pico o Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito emitiu uma nota formal, criticando o nosso trabalho, insinuando que o mesmo não cumpriu os passos éticos científicos e que não havíamos baseado o mesmo em medidas anatômicas reais. Eu respondi a nota diretamente no perfil do Ministério, além de escrever uma resposta pública, demonstrando que: 1) Fotografar e filmar os restos mortais era liberado no museu, 2) Que seguimos parâmetros científicos como as medidas, que estavam dispoiníveis em publicações revisadas por pares e 3) Aproveitei apra explicar que eu havia publicado um artigo (na OrtogOnLineMag) com o passo-a-passo do trabalho e que a ancestralidade africana era informada pelos especialistas que estudaram os restos na década de 1980, não foi invenção nossa e que a equipe já havia reconstruído outras múmias do Egito Antigo sem a colocação compatível com negros africanos e mesmo o nosso trabalho apresentava uma versão em escala de cinza, ou seja, com uma pigmentação neutra. O desfecho foi o silêncio posterior do Ministério e uma matéria favorável a meus argumentos foi publicada na mídia árabe voltada ao público internacional.

Note

Depois desse episódio eu tomei real gosto por disputas intelectuais e acadêmicas abertas e passei efetivamente a não me chatear mais com as mesmas. Para provar de uma vez por todas que era possível fazer uma aproximação facial sem a necessidade de deslocar-se até o local para digitalizar um crânio e refutar o Ministério do Turismo, ainda procedemos com a reconstrução facial de Tutancamon e a publicamos em um journal revisado por pares, a primeira da história com essa formalidade acadêmica [Moraes_et_al_2023b_c]. Curiosamente, se por um lado huve muita reclamação, por vezes de modo bastante preconceituoso por Nazlet Khater ter sido retratado como negro africano (lembrando que ele nada tem a ver com o Egito Antigo, pois morreu 30 mil anos antes do primeiro rei), também houve crítica quando o retratado era “branco demais” segundo uma corrente que chamada de afrocentrista, em oposição à eurocentrista. Ou seja, em qualquer situação abre-se a possibilidade de ataque e debati com ambas, indicando que meu trabalho é independente. Algumas pessoas apelaram durante esses confrontos, como por exemplo, colocando fotos de pessoas da minha família que nada tem a ver com a situação, para abordar questões de cunho racial. Permaneci firme, compartilhando um estudo que mexeu, inlcusive em tabus relacionados a cor da pele dos antigos egipcios e serviu para refutar algumas alegações tanto de “afrocentristas” quanto de “eurocentristas”.

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Fig. 62 Slide 45

Uma coisa que aprendi nesses embates é que, se você refuta um especialista publicamente e este tem certo poder midiático, acadêmico e institucional, há uma tendência de desenvolvimento de rancor, independente da esperada maturidade emocional do indivídio. Foi o que se passou com a dupla de pesquisadores egípcios a Dra. Sahar Saleem e o Dr. Zahi Hawass. Suponho que os mesmos estavam acostumados a confrontar indivíduos que aceitavam seus argumentos sem combatê-los, de modo que os dois começaram a atacar meu trabalho, tachando-o de não científico e que eu não poderia utlizar os dados das pesquisas deles daquela forma, além de outras alegações infundadas, inicialmente nas redes sociais e posteriormente em matérias veiculadas na mídia egípcia (jornal Al-Ahram). Em face ao carinho que tenho pelo pesquisa de ambos tentei evitar um confronto público, mas depois de um tempo, frente ao bloqueio da rede da Dra. Saleem para minhas respostas e a matéria e falas do Dr. Hawass sobre eu potencialmente apoiar uma vertente afrocentrista e woke, acabei por publicar uma refutação pública detalhada demonstrando que: 1) Diferente do que eles alegavam, meu trabalho era científico, publicação e... curiosamente a Dra. Saleem já havia citado e elogiado meu trabalho em sua publicação e além disso, eu já havia revisado um manuscrito dela, 2) Que não estou envolvido com nenhum movimento cultura e que fui criticado por afrocentrista e euroscentristas, 3) Que sim, eu posso utilizar os dados, pois além de fazê-lo no âmbito acadêmico, as publicações e imagens utilizadas estavam sob licença Creative Commons e permitialm tal (suponho que eles não tinham ideia do que se tratava).

Depois da minha resposta, o Dr. Hawass que havia ameaçado queimar a minha reputação junto à imprensa, silenciou-se e o mesmo fez a Dra. Saleem. A mídia árabe e brasileira publicaram matéria favoráveis aos meus argumentos. Eu continuei a utilizar os dados das pesquisas deles e publicar o material como será visto logo mais. Em relação a publicações revisadas por pares, além da aproximação facial de Tutancâmon, já citada, também, publicamos uma relacionada ao faraó Amenhotep III [Moraes_et_al_2024e_c] e ironia das ironias, a mesma foi atacada pela ala afrocentrista por “ser branco demais” e por “parecer com o Dr. Hawass”, como se tivessemos feito o trabalho para satisfazer um indivíduo ao qual confrontávamos publicamente.

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Fig. 63 Slide 46

Seguindo com a questão do rancor institucional, em outubro de 2024 publicamos na OrtogOnLineMag a aproximação facial do crânio atribuído a Jan Žižka, um herói tcheco, próximo ao período da comemoração dos 600 anos de sua morte. Novamente, por se tratar de uma personalidade histórica o trabalho viralizou significativamente na mídia nacional. Por utilizar no caso de Žižka um remanescente de crânio maior do que no caso de Santa Ludmila e por já termos publicado um artigo revisado por pares sobre o estudo dela, imaginamos que os críticos aquela altura não se levantariam contra, no entanto, motivados pelo supracitado rancor e pela refutação de 2021, simplesmente dois institutos de arqueologia associados à Academia de Ciências da República Tcheca (CAS) compuseram uma declaração pública de preocupação e crítica ao trabalho, detalhando os pontos que segundo eles eram críticos. A nota compartilhada em tcheco e em inglês (eles imaginavam que teria repercussão internacional) recebeu o apoio da Academia. O conteúdo hostil e pleno de rancor se mostrou algo raro entre as notas do instituto de Arqueologia, demonstrando se tratar de um ataque direto a pesquisadores independentes e não algo corrente e esperado por parte da instituição.

Elaborei uma detalhada resposta pública na qual: 1) Apontei o desconhecimento do Instituto de Arqueologia em relação às técnicas de aproximação facial forense, destacando que 91% das aproximações relacionadas ao CAS haviam sido realizadas por mim e por minha equipe; 2) Esclareci que o artigo sobre a aproximação de Jan Žižka foi revisado por pares e incluía um estudo piloto demonstrando o funcionamento da técnica de reconstrução de regiões faltantes, comprovando sua robustez científica; 3) Evidenciei que nenhuma aproximação do CAS contava com publicação revisada por pares, enquanto eu e minha equipe já havíamos publicado, apenas naquele ano, cinco artigos revisados por pares sobre o tema, sendo, em todo o histórico de publicações, três deles em colaboração com membros do CAS; 4) Denunciei publicamente o assédio por parte de membros do CAS, que, desde 2021, vinham tentando prejudicar minha reputação, a partir do episódio ligado a Santa Ludmila; 5) Refutei a presidente do CAS, que insinuou que um dos meus trabalhos, envolvendo São Adalberto, carecia de explicações acerca da origem do crânio, o que desmenti com a publicação de um artigo em um jornal revisado por pares, contendo todos os dados pertinentes [Moraes_et_al_2025b_c].

O embate repercutiu na mídia tcheca e brasileira, que cobriu a primeira parte do confronto. Posteriormente, com a publicação de um artigo revisado por pares sobre a aproximação facial forense [Moraes_et_al_2024f_c], que incluiu testes cegos, demonstramos que a técnica era robusta e havia cumprido o formalismo acadêmico, refutando o CAS e abalando a imagem da academia e de seus apoiadores na elaboração da nota. Em 2025, descobri que o perfil da Academia de Ciências havia me bloqueado no Facebook e publiquei uma nota evidenciando a derrota tácita, técnica e moral, da instituição. A nota furou a bolha acadêmica e o interesse em relação a minha refutação pública aumentou, fazendo com que o documento passasse de 5000 leituras e instigasse debates nas mídias sociais.

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Fig. 64 Slide 47

Depois dos dois grandes confrontos, tanto com os egípcios quanto com os tchecos, eu voltei a trabalhar em reconstruções relacionadas aqueles países. No caso da República Tcheca, publicamos um artigo revisado por pares com a face de Vensceslau da Bohêmia [Moraes_et_al_2025_c], importante doge e santo daquele país e uma evidência clara de vitória sobre a estatal Academia de Ciências, foi que o Dr. Petr Kroupa, um importante membro do Castelo de Praga, ou seja do coração executivo do país foi coautor do nosso artigo. Ou seja, o objetivo que visava prejudicar a reputação não prosperou. Além disso, ao saber que o fóssil de Lucy, a A. afarensis de 3.2 milhões de anos seria exibida naquele país, procedemos com uma reconstrução facial apresentando-a alguns meses antes da exibição e recebendo ampla cobertura midiática. Em nenhum dos projetos houve manifestação por parte de instituições tchecas. No caso dos egípcios, utilizei os dados de um outro artigo da Dra. Saleem, também sob licença Creative Commons envolvendo o Golden Boy, uma múmia jovem do período ptolemaico, com significativa repercussão, mas também sem nenhuma manifestação tanto da Dra. Saleem, quanto do Dr. Hawass.

A título de curiosidade, Vensceslau da Boêmia é o neto de Ludmila da Boêmia, que eu havia citado anteriormente. Além da confiança em ter um ente do Castelo de Praga entre os autores, já em 2018, antes de toda a confusão eu estive pessoalmente no Ministério da Cultura da República Tcheca para receber um reconhecimento daquela instituição pelos trabalhos relacionados a aproximação facial forense.

Attention

É justamente nesse período, entre os confrontos e a “paz” que publiquei os trabalhos relacionados ao Santo Sudário. Pelo histórico percebe-se que além de versado na arte do confronto acadêmico aberto, eu havia tomado gosto pela coisa, tanto que meu site pessoal passou a contar com uma seção própria de Debates e Controvérsias.

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Fig. 65 Slide 48

O estudo que inspirou o convite a essa palestra foi aquele ligado ao Sudário de Turim, então, em face a esse dado, focarei uma explanação mais pormenorizada do processo de desenvolvimento, com a introdução fundamentada pelo Ciclo Criativo.

O Interesse: Eu nunca havia me interessado em analisar o Sudário de Turim, no entanto, uma discussão ocorrida em um grupo da Mensa Brasil (WhatsApp) onde de um lado defendiam a origem da peça nos tempos de Cristo e outro via isso com significativo ceticismo, decidi ler as fontes informadas e percebi que havia algo de estranho com a anatomia e com os conceitos pró-origem divina.

O Chamado: Para não ser injusto comecei a ler os artigos que abordavam a datação, os que criticavam-na, os artigos que alegavam ser essa uma peça divida, outros que era uma falsificação e assim por diante. Também percebi que a estrutura do corpo era muito consistente com uma obra de arte e que dificilmente seria um padrão adivindo de um corpo humano, pois se o fosse, estaria significativamente deformado, um processo comum quando se passa informações tridimensionais para um plano bidimensional. A curiosidade inicial evoluiu para algo mais profundo e metódico, evidenciando que era o momento de formalizar o estudo.

O Estado de Fluxo: Saí da discussão do grupo e foquei em um estudo próprio, levantando literatura que contemplasse os conceitos envolvidos e organizei tudo em um artigo final. Esse foi inicialmente publicado como preprint [Moraes_2024_c] em agosto de 2024, tendo grande repercussão internacional e posteriormente foi revisado por pares e publicado formalmente [Moraes_2025_c] com uma repercussão estrondosamente maior. Foi o primeiro caso onde um artigo peer reviewed superou a repercussão de um preprint.

O Intelectualmente Estimulante: Com a repercussão veio a ira do movimento sindonologista, ou seja, dos especialistas do sudário. Os debates iniciavam com um véu acadêmico por parte deles, mas depois de muita discussão, perdiam a civilidade e partiam para ataques pessoas, que variavam do desprezo pelo trabalho até ameaças de arder no fogo do inferno. Essa fúria, atrelada ao interesse geral fez com que o artigo atingisse um nível de influência significativo, de modo a, como se verá mais a frente, protagonizar a discussão no campo de História e Arqueologia a nível mundial.

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Fig. 66 Slide 49

Não foi muito difícil identificar inconsistências já na primeira observação da peça (Fig. 66). Há uma separação muito clara entre frente e atrás, sem a junção esperada e o espalhamento dos cabelos no padrão que um corpo deixaria. O próprio padrão do corpo tem uma estrutura ortográfica, ou seja, lembra muito a imagem de uma fotocópia bidimensional, algo “plano”. A anatomia é muito reta, rígida, não conta com a graciosidade de um corpo humano com as suas linhas arredondadas; curiosamente eu sei disso pois, além de trabahar com escultura digital, também já fiz uma escultura de corpo inteiro de uma candidata a beata da Igreja Católica. Outro detalhe que salta aos olhos é a assimetria dos braços, onde um é significativamente maior do que o outro.

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Fig. 67 Slide 50

Em relação a questão da “imagem de fotocópia”, fiz um experimento muito simples para demonstrar como uma face 3D é “traduzida” para a sua versão 2D em um tecido e qualquer pessoa pode fazer o mesmo; basta pigmentar a face com uma substância (não tóxica evidentemente) e pressionar levemente uma toalha de papel ou tecido envolta do mesmo. Ao final o que se tem é um “rosto aberto” ou deformado, cujo efeito é conhecido como “máscara de Agamemnon”, por lembrar aquele objeto. Curiosamente, descobri nas minhas leitura que há uma hipótese de que o Sudário de Turim fora envolvido externamente pelo Sudário de Oviedo, no entanto, o segundo conta com o efeito da “máscara de Agamemnon” e as orelhas se monstram bem separadas, já o segundo (Turim) apresenta uma face chapada (ortográfica). Ou seja, já aí vemos uma das hipósteses, a de que era um corpo humano, derrubadas por um experimento simples.

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Fig. 68 Slide 51 - Foto 1: Beatus of Liébana. Foto 2: Tomb of Giovanni Carbone. Foto 3: Jacopo della quercia, altare e lastre tombali trenta, 1422. Imagens sob domínio público.

Ao analisar a pose recatada, recordei-me de tê-la visto na excelente obra História da Vida Privada (vol. 2), onde ilustra-se a imagem de Adão e Eva cobrindo suas genitálias em uma gravura do século XI. Estudando um pouco mais, descobri a arte tumular, que também lança mão dessa pose e... com grande constância trata-se de peças em baixo relevo, ou seja, muito próximas e compatíveis com a estrutura ortográfica do Sudário de Turim. Causou-me espanto que nenhuma material que consultei cita essa compatibilidade e também não encontrei nenhum outro em buscas mais pormenorizadas que fizessem tal ligação. A evidência da arte tumular ou tomb effigy refuta uma das alegações de que não havia conhecimento artístico no período medieval para fazer uma obra assim, sendo que, o timing se mostra perfeito.

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Fig. 69 Slide 52

Decidi limitar o meu estudo em um escopo bem simples, ele mostraria qual seria o padrão de contato de um corpo volumétrico humano/estátua, versus o padrão de contato de um baixo relevo. Inicialmente criei um corpo humano com as características ortográficas do Sudário de Turim, buscando ajustá-lo ao máximo em relação a esturtura, mas sem alterar a simetria do corpo. Ali já era possível atestar que um dos braços do sudário era significativamente maior do que o outro (Fig. 69).

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Fig. 70 Slide 53

Em seguida criei um tecido com a metade do comprimento do original, pois o meu teste seria efetuado apenas na parte frontal do corpo, não sendo necessário fazer nas duas (frontal e traseira) para observar a questão da deformação estrutural. Mais que isso, optei por apenas pousar o tecido com a ação da gravidade sobre ele, não enrolando-o, pois isso causaria uma deformação ainda maior, logo, bastaria que o tecido fosse solto sobre o modelo para demonstrar a questão da deformação no estilo “máscara de Agamemnon”.

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Fig. 71 Slide 54

Configurei uma abordagem baseada em coloração de contato, para que quando o tecido estivesse bem próximo ao modelo, ele fosse pigmentado, destacando o padrão e podendo ser reaberto (planificado) e analisado (Fig. 71).

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Fig. 72 Slide 55

Simulei uma estrutura em baixo relevo, utilizando a ferramenta de geração de modelos não-retentivos do OrtogOnBlender, isso permitiu manter todas as informações dos detalhes anatômicos, mas com uma altura correspondente a 1/4 do espaço entre o meio do corpo até o topo do nariz, essa altura foi escolhida para evitar a perda dos detalhes, posto que abaixo do meio do braço os detalhes não são observáveis da parte superior. Esse modelo em baixo relevo gerou um padrão de contato que também foi mapeado digitalmente (Fig. 72).

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Fig. 73 Slide 56

Os padrões resultantes foram planificados, de modo a permitir a observação e comparação das estrutura resultantes (Fig. 73).

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Fig. 74 Slide 57

A imagem que se popularizou foi justamente aquela que agrupa todos os elementos levantados, ou seja, do lado esquerdo o padrão deformado advindo de um corpo humano/estátua, ao centro a imagem original do sudário e ao lado direito o padrão resultante do contato com o baixo relevo (Fig. 74). Esta composição ilustra de forma bem didática a impossibilidade de uma origem humana e reforça a evidência de uma fonte mais planificada, como um baixo relevo.

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Fig. 75 Slide 58

Um vídeo didático demonstrando as simulações digital e física apoiaram o material escrito, permitindo uma melhor compreensão pela dinâmica, ou seja, o exmeplo acontecendo em tempo real conforme o tecido pousava sobre o corpo, além do teste no estilo “faça você mesmo”.

Important

Além do vídeo didático, a versão revisada por pares do artigo compartilhou os arquivos fonte para que os interessados possam replicar ou ajustar o processo, que é acessível uma vez que todos os softwares envolvidos são gratuitos e de código aberto, além de rodarem nos sistema Windows, Linux e MacOS. Em outras palavras, trata-se de um estudo totalmente transparente, desde a técnica, até as ferramentas e arquivos usados.


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Fig. 76 Slide 59

Em relação às versões do artigo e a repercussão dos mesmos, o preprint teve matérias em 23 idiomas, um número significativo e que gerou um bom debate aberto, no entanto, a versão revisada por pares fez algo inédito entre meus trabalhos, foi o primeiro que, gerou mais repercussão do que a versão preliminar. Foi assunto em notícias publicadas em 46 idiomas, exatamente o dobro do anteiror, o que gerou um debate muito maior, furando a bolha religiosa e até mexendo com as bases dos ascéticos, como veremos adiante.

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Fig. 77 Slide 60

Diante da grande repercussão do artigo e o debate público acalorado, a Diocese de Turim (guardiã do sudário) fez algo raro, soltou uma nota de preocupação acerca do estudo e apoiou um comunicado de imprensa composto pelo Centro Internazionale di Studi della Sindone (CISS). Nessa nota eles abordaram uma série de pontos que julgavam importantes e que refurariam o meu estudo. O problema é que eu sabia ao menos quem era um dos autores da nota e também sabia que esse indivíduo não havia lido o artigo detalhadamente, tanto que na nota eles citam algo que eu observei em uma notícia, não na publicação e isso evidenciou a dificiência técnica do documento deles, dentre outras questões que eu comentei na minha resposta pública.

Um ponto muito irônico da nota do CISS é que eles, pretendendo fechar o documento que me rotula como não-científico (sempre a mesma abordagem) com uma lição acadêmica, citam uma fala de Richard Feynman, um nobel. No entanto, pouco antes de eu compor a minha resposta, fui aceito como membro da Sigma Xi, uma sociedade científica bastante tradicional que teve em seu quadro 200 laureados, dentre eles Einstein e... Feynman. Eu chamei a situação de “o milagre da refutação”.

O comunicado do CISS foi amplamente compartilhado pela mídia católica, então de um lado... novamente... estava um colosso institucional versus eu, um pesquisador independente. No entanto, as matérias que abordavam o assunto eram em sua maioria favoráveis ao meu estudo, pois o mesmo havia passado por todo o processo formal no contexto acadêmico e a nota era um aprodução editorial, sem o rigor esperado para um debate naquele nível. O que aconteceu na prática é que, o meu artigo, que sequer era open access, se converteu no segundo mais infuente do mês nos campos da História e Arqueologia e o mais influente da história do journal Archaeometry da Wiley-Oxford.

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Fig. 78 Slide 61

Eu tentei conversar com a Diocese de Turim, mas fui bloqueado pelo perfil do Facebook dela, além de enviá-la e-mail e não receber resposta. Um fato estranho ocorrido durante esse episódio foi que, a sucursal de Turim do jornal Corriere della Serra, havia publicado uma matéria sobre o meu artigo antes do imbróglio com a Diocese, de modo que foi favorável ao meu ponto. O comportatilhamento da notícia no perfil principal do jornal evidencia o hype (entusiasmo, euforia) que a matéria gerou com seus 10 mil likes, 9,4 mil comentários e 1,6 mil compartilhamentos, algo bastante significativo em um post no Facebook, ainda mais no idioma italiano. No entanto, quando fui acessar o conteúdo para um clipping de notícias que eu estava compondo no pós-confronto com a Diocese e o CISS, eis que me deparo com uma página não encontrada! Eu quero acreditar, ainda hoje que não tenha passado de algum erro técnico, pois seria muito vergonhoso, para não dizer preocupante, que um jornal daquela envergadura cedesse à pressão e derrubasse uma matéria. Felizmente eu já havia armazenado o link e consegui recuperar o conteúdo original via Webarchive. Sendo problema técnico ou não, o fato é que esse ocorrido é algo muito estranho e sim, eu entrei em contato com eles também, por várias vias, mas sem sucesso.

Note

Eu nunca bloqueei ninguém por conta de discussões acadêmicas ou de outra natureza interativa real, as poucas vezes que fiz isso foi por tentativas de golpes aleatórios efetuados por humanos ou programas digitais. Nã aprecio fechar o diálogo, pois embora eu geralmente esteja bastante convencido acerca dos meus pontos, pode ser que no final das contas eu tenha me equivocado.

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Fig. 79 Slide 62 - A imagem representando o VP8 é uma simulação compatível, ver a original da citação abaixo.

Retornando à resposta ao CISS, até o momento eu havia evitado estender demais o debate, pois os sindonologistas têm uma tática muito conhecida de tentarem ampliar os argumentos e levar o oponente à exuastão, fazendo com que o mesmo desista de seguir com a conversa frente ao caos de “evidências técnicas irrefutáveis”. No meu caso eu havia deixado bem claro qual era o escopo do meu artigo e evitava estender demais a discussão, no entanto eles não desistiram e sempre que podiam usavam como argumento a extensão de pesquisas do STURP, o Shroud of Turin Research Project, o único (ou dos poucos) que teve acesso completo ao sudário. Um dos estudos tidos como canônicos e que fundamentavam o potencial mistério atrelado com a peça, era aquele efetuado com o Analisador de Imagem VP8. Segundo os sindonolologistas, tal estudo [Jackson_et_al_1984_c] demonstrava que a fonte geradora da imagem era um corpo tridimensional, e logo, fundamentava a origem baseada em uma estrutura humana. Eu li o artigo em questão e... descobri que a história não era bem aquela, na verdade a imagem que eles extraíram com os dados de uma foto (não diretamente no tecido) era mais compatível com um baixo relevo do que com um ser humanos e para exacerbarem a projeção tiveram que inserir dados que não constavam na projeção original, logo, o que tínhamos ali era uma tecnologia muito parecida com a atual Z-Depth, justamente aquela que eu usei para desenvolver o gerador de superfícies não retentivas no OrtogOnBlender! Ficou evidente que quem se apoiava naquele artigo não tinha muita noção do que era a abordagem, ou, na pior das hipóteses, fiaram-se em algo que não representava o que imaginavam.

Note

Imaginando que eu não aceitaria o convite, um sindonologista perguntou se eu gostaria de fazer parte de um grupo do WhatsApp com especialistas da área. Eu aceitei, entrei, debati e aproveitei para pedir a eles que me enviassem os artigos que julgavam canônicos para o sustento de sua crença de que o sudário tinha origem divina. Eu já havia lido uma série deles e já havia percebido que os autores foram mais cautelosos do que os sindonologistas pregavam. Depois de um tempo e por conta do constante “ataque” paralelo dos usuários não surtir efeito no quesito desestabilização, fui removido do grupo. No entanto, muito do que eles forneceram me ajudou a compor a esposta ao CISS e minar as bases mais caras da sindonologia.

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Fig. 80 Slide 63

Outro ponto que sempre colocavam à mesa era o de que o STURP havia retirado a possibilidade de pigmentação da peça, pois não havia vestígio de pintura no linho. Fui atrás do artigo [Heller_and_Afler_1982_c] e ao analisá-lo descobri que os autores, diferente do que afirmavam os sindonologistas, não excluíam a possibilidade do tecido já ter sido pigmentado em algum momento, pois segundo os autores: Deve-se notar que, embora todos os outros testes orgânicos sejam negativos, isso não exclui a possibilidade de que algumas dessas substâncias possam ter residido no tecido no passado e terem sido “perdidas” ao longo do tempo por oxidação, degradação, etc. Ou seja, como abordei anteriormente os autores dos estudos eram mais cautelosos do que a narrativa imprimia, o exagero retórico vinha da parte dos sindonologistas.

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Fig. 81 Slide 64 - Xilogravura (Woodblock; Ambrosia altera Wellcome) e Arte tumular. O Dr. Accetta atestou que nossos trabalhos eram complementares e verbalizou isso no célebre programa de debates Piers Morgan Uncensored, cujo episódio foi pautado pela repercussão mundial do meu estudo.

Aliás, segundo tal narrativa, os especislistas do STURP pareciam ter criado uma linha pensamento homogênea que se traduzia em um consenso sobre o mistério do sudário, sem que houvesse grande discordância interna, no entanto, não era bem assim, pois o Dr. Joseph Accetta que fez parte da equipe era favorável a origem medieval da peça e inclusive escreveu um artigo abordando tal ponto [Accetta_2019_c]. Eu só soube do material depois dos embates, no entanto, ao lê-lo percebi que o meu artigo e o do Dr. Accetta eram complementares, pois ele indicava que a fonte geradora do padrão seria uma xilogravura, algo compatível com a arte tumular, dado o baixo relevo. Não se trata da mesma origem, mas a lógica é bastente similar, além disso o autor também pontuou a questão da cautela dos membros do STURP e chegou a explicar os motivos do linho ter perdido os resquícios de pintura.

Note

Outro argumento que os sindonologistas sempre utilizavam contra minha pessoa era aquele do concurso de um milhão de dólares para quem recriasse um sudário idêntico ao original, no entanto, ao ler as regras, percebi que era necessário pagar para participar, e que eu sequer poderia fazê-lo, pois o período de inscrição havia passado e a participação era limitada a cidadãos britânicos e norte-americanos. Esse é um exemplo de como o grupo usa os argumentos mais baseado na retórica de impacto do que na efetividade e coerência informativa. Creio que poucos têm, como eu tive, a boa vontade de ler detalhadamente acerca do que eles vociferam, pois se alguém o fizer, desmantelará as falácias.

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Fig. 82 Slide 65

Muitos sindonologistas também pareciam desconhecer o processo de revisão por pares, pois não foram poucas as vezes que insinuaram que meu artigo foi publicado em julho de 2025 por conta de um importante evento do grupo, o qual eu desconhecia. Eu sequer indiquei quem poderia revisar o artigo (como é permitido em alguns journals), a escolha dos revidores foi totalmente aleatória. Coincidentemente outro artigo tratando do assunto foi publicado em um journal da Taylor & Francis, no qual, através de documentação registrada, evidenciava-se que o sudário era uma obra do século XIV [Sarzeaud_2025_c]. A Taylor & Francis inclusive citou o meu artigo no release de apresentação do paper em questão, ajudando ainda mais na repercussão do mesmo.

Depois de um fogo inicial de debate e confrontação e em face das refutações constantes, o grupo dos sindonologistas silenciou-se, ao menos em relação a comunicação direta com a minha pessoa.

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Fig. 83 Slide 66

Para finalizar essa apresentação, eu gostaria de abrir o coração e confessar algo, sou um pessoa introspectiva, um tanto tímida, que aprecia grandemente compartilhar informação e debater o conhecimento. Creio que ficou bem evidente em relação a transparência dos estudos que aqui compartilhei. Esta palestra é mais do que uma apresentação, ela é parte de vários projetos recursivos que chegaram a uma conclusão. Talvez não tão evidente e com bordas marcadas como eu gostaria, mas aqui tive a oportunidade de fazer um balanço que envolve 192 palestras (com esta), 150 aproximações faciais forense, ~300 publicações de artigos, ~3000 matérias midiáticas em texto selecionadas catalogadas, ~500 matérias em vídeo, mostras culturais/históricas, honrarias e reconhecimentos aos quais sou muito grato e, sempre que possível, dividi os meus e instiguei outras pessoas a conquistarem os seus, não terem medo de lutar, não terem vergonha de serem o que são e do que fazem, que o trabalho delas é digno e ilustre, indepentende do reconhecimento formal ou não.

Montei esse esquema, onde o trabalho é suportado por três pilares: a relevância, a robustez técnicas e a popularização/popularidade.

A Relevância é como ele impacta na realidade, como resolve as coisas, como se torna algo útil e/ou essencial. São as soluções, protocolos, softwares, mostras, honrarias e até os confrontos, que embora pareçam algo deletério e tóxico, são formas de reconhecimento. São as revisões de artigos solicitadas, são ações e situações que demonstram importância dentro de um campo ou vários.

A Robustez Técnica é a base que o valida, que o suporta e que conversa com quem quer replicá-lo e/ou usá-lo. São as publicações técnicas, as revisadas, os preprints, os manuais, os livros e até o poder argumentativo que emerge desse conhecimento adquirido.

A Popularização ou Popularidade é a forma de documentar o trabalho na história, é fazer o trabalho conhecido, é fazer-se conhecido, com dignidade e orgulho sem a vergonha, sem a auto sabotagem, é tornar-se uma referência popular, é inspirar outrem, como as obras que citei me inspiraram na tenra idade.

Sou um apaixonado por projetos, por executar projetos longos e complexos, que mexem com o meio, que se transformam em parte da história. Esse era o meu sonho de menino e recebi uma grande ajuda inspiradora, tanto de programas televisivos de interesse geral ou de desenhos animados indiretamente educativos. Comecei a colher frutos efetivos já com certa idade e aprendi na prática que realmente, nunca é tarde para perseguir os seus sonhos, os meus eu comecei de modo claro a correr atrás depois dos 30 e de um episódio traumático e violento. Então, suponho que o objetivo dessa palestra é isso, mostrar que você pode conquistar vitórias, mas não aquelas vitórias formatadas e definidas, me refiro às customizadas, que pertencem a cada um que lê esse documento e lá no fundo sabe o que é melhor para si e como conquistar.


Por isso tenho tanto orgulho de tudo, como o meu clipping de 10 anos de notícias televisivas, atualmente as mídias dessa natureza já não são tão poderosas como há uma década, pode soar como demodê, cringe ou outra palavra da moda. No entanto, esse feito representa pra mim uma série de superações com profundo significado. Quando eu fui assaltado em 2011 as TVs chegaram antes da polícia e lá tive a minha primeira “coletiva de imprensa”, atordoado, em estado de choque. De 2014 a 2024 pude fazer outro projeto, agora focado em momentos de vitória, reescrevendo os conceitos e a história pessoal com esforço, pensamento acadêmico e amor pelo conhecimento.

Muito obrigado!

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