Feminização e Masculinização no OrtogOnBlender: Proposta de Protocolo para Estudos de Casos

Pablo Huber
Cirurgião Plástico - Hospital Union e Perito Oficial Médico Legista – Polícia Científica do Paraná.
Richard Gravalos
Cirurgião Dentista, Especialista em Cirurgia e Traumatologia Buco-Maxilo-Facial, Especialista em Ortodontia, Especialista em Saúde Pública/Saúde da Família, São Paulo - SP.
Arturo Frick Carpes
Otorrinolaringologista, Cirurgião Crânio Maxilo Facial, Médico do Sono, Doutor em Ciências pelo Departamento de Cirurgia Plástica da FM-USP.
Cicero Moraes
3D Designer, Arc-Team Brazil, Sinop-MT, Brazil - Bachelor’s degree in Marketing, Dr. h. c. FATELL/FUNCAR (Brazil) and CEGECIS (Mexico) - Member of Sigma Xi, Mensa Brazil, Poetic Genius Society, and International Society for the Study of Creativity and Innovation (ISSCI) - Invited reviewer: Elsevier, Springer Nature, PLoS, and LWW - Guinness World Records 2022: First 3D-printed tortoise shell.
Data da publicação: 24 de abril de 2026
ISSN: 2764-9466 (Vol. 7, nº 2, 2026)

Attention

O presente texto configura um fragmento da atividade intitulada ‘Mesa Redonda 7: Face: Vídeo, Volume e Vitalidade’, apresentada no âmbito da 41ª Jornada Sul-Brasileira de Cirurgia Plástica, sediada em Porto Alegre (RS), de 23 a 25 de abril de 2026.

Introdução

O OrtogOnBlender (OOB) é um add-on originalmente desenvolvido para o planejamento de cirurgia ortognática [Cunha_et_al_2020_c] [Lobo_et_al_2022_c], mas que progressivamente foi adaptado a outras finalidades, correção de fraturas mandibulares [Facanha_et_al_2021_c], como retalhos microcirúrgicos, cranioplastias, rinoplastias [Sobral_et_al_2021_c], correções mandibulares em neonatos [Duarte_et_al_2023_c], ducumentação urológica, próteses faciais [Salazar_et_al_2022_c], próteses veterinárias [Taub_2024_c] e reconstrução facial forense [Moraes_et_al_2024_c], além da masculinização e feminização no âmbito da cirurgia plástica.

A aplicação em abordagens tão distintas é viabilizada pela flexibilidade de sua interface abrangente que, embora demande uma curva de aprendizado mais acentuada, confere aos usuários significativa liberdade para adaptá-lo às suas necessidades técnicas, independentemente do escopo original ou das documentações disponíveis.

O presente manuscrito aborda a utilização de soluções integradas ao OOB que podem ser adaptadas ao estudo de casos de feminilização e masculinização, constituindo uma ferramenta robusta não apenas para a previsibilidade da unidade estética cervicofacial, mas também para a confecção de guias a serem utilizados no transcirúrgico.

Proposta Prática de Protocolo Baseada em Segmentação Ortognática

Important

A demonstração prática deste item trata-se apenas de uma abordagem didática, não configurando em uma simulação efetiva. A tomografia utilizada faz parte da coleção de exemplos do software OsiriX, foi baixada em 2012 e está sendo utilizada neste exemplo com fins puramente didáticos e não comerciais.

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Fig. 17 A) Crânio composto com osteotomias. B) Projeções das estruturas anatômicas.

Primeiramente o usuário procede com o planejamento de cirurgia ortognática até a configuração das osteotomias (Fig. 17, A) e do tecido mole (ver [Moraes_et_al_2020_c]). Em seguida são adiconados os marcadores de médias e proporções anatômicas (Fig. 17, B). Estes funcionam como uma referência esturtutural tanto para a anatomia do crânio, demarcando dentre outras, as medidas dos limites horizonais dos gônios, os limites verticais do ponto nasolabial, incisivos e mento; no caso do tecido mole, dentre outras, a medida horizontal das asas nasais, dos olhos e dos lábios e as medidas verticais das orelhas [Moraes_et_al_2024_c]. No contexto didático, duas aulas acerca da metodologia de projeção estão disponíveis de modo online em: aula 1 e aula 2.

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Fig. 18 Ajuste das osteotomias.

A utilização das ferramentas já disponíveis no OOB, permitem que o usuário proceda com o ajuste estrutural das osteotomias, buscando um ajuste anatômico que compatibilize e evidencie aspectos gráceis à face. No presente caso o mento foi retraído (Fig. 18, A), a região dos gônios foi refuzida no eixo horizontal X (Fig. 18, B e C) e o prognatismo mandibular foi abrandado (Fig. 18, D e E).

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Fig. 19 Pré e pós prévio - visualização interativa. A imagem B contém sobreposição de imagens para evidenciar o ajuste estrutural.

Durante o processo de ajuste das osteotomias, o usuário pode visualizar o antes (Fig. 19, A) e o depois (Fig. 19, B) prévio, através do deslocamento do cursor na Timeline, que anima os estados original e ajustado (Fig. 19, C).

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Fig. 20 Rinoplastia utilizando os Shape Keys do Blender.

O OOB fornece ao usuário a possibilidade de trabalhar com rinoplastia com elementos de projeção estrutural. Esta abordagem pode ser adaptada para trabalhar em conjunto com as ferramentas de ortognática atravéz dos Shape Keys, pois estes permitem a criação de estados da malha 3D que pode ser aplicados ou como um todo, ou em regiões diferentes, com intensidades diferentes. Neste caso foi configurado um estado original da malha e outro representanto a rinoplastia (Fig. 20, A). Para que o mesmo seja efetuado é necessário trabalhar em Edition Mode (Fig. 20, B), ajustando a esturutra para o formado desejado (Fig. 20, C).

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Fig. 21 Visualização do pré (A) e pós (B), com sobreposição (C).

Os estados do Shape Key podem ser animados, unificando o pré e pós da Timeline do Blender (Fig. 21). É possível ainda adicionar configurações complementares à face, como a suavisação da região da glabela, da proêminência laríngea, além de outras complementações como a capilar e afins.

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Fig. 22 Projeções dos cortes a partir dos pós digital.

Uma vez que o usuário estipula o quanto da estrutura vai ser subtraída, é possível demarcar os limites futuros do pós cirúrgico (Fig. 22, A e C) e retornar ao estado original da estrutura para saber onde as osteototomias devem ser efetuadas (Fig. 22, B e D). No caso do mento, como este foi ajustado aos novos limites e perderá parte do espaço por conta desta limitação, a linha de corte é parenteada ao objeto e quando retorna ao ponto original, demarca o que será retirado. No caso dos ramos direito e esquerdo, a abrodagem é diferente, pois os mesmo serviram apenas para ajuste dos limites marginais, logo, a delimitação permanece da mesma forma, pois o objetivo neste caso era saber qual deveria ser o desgaste para se chegar a gracilidade desejada. De qualquer forma o usuário tem total controle do espaço e do tempo, podendo avançar e retornar, alterar os pontos de corte, ajustar as intensidades das deformações, etc.

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Fig. 23 Planos de corte e osteotomias.

Utilizando as ferramentas de planos de corte, os mesmos são ajustados às projeções estipuladas pelo usuário. Esses planos são muito úteis no momento de se criar os guias de corte, pos sua esturtura será a base para as operações booleadas que geração os mesmos (Fig. 23, A e B). Por conta das abordagens diferentes, o mento remanescente ficou afastado da mandíbulas, mas os ramos já se encontram em sua posição final (Fig. 23, C); então a posição final do mento também é ajustada e a mandíbula pretendida é finalizada (Fig. 23, D).

Protocolo Baseado em Deformação Anatômica

A deformação anatômica é uma abordagem que consiste em converter um indivíduo em outro (humano ou não [Moraes_et_al_2022_c]) ou uma espécie em outra [Bezzi_and_Moraes_2015_c], atravéz da deformação do crânio com influência no tecido mole. Tal técnica é bastante flexível e permite o ajuste de um adulto em uma criança [Moraes_et_al_2024b_c], bem como um indivíduo saudável para outro com algum quadro sindrômico, como por exemplo, acondroplasia [Moraes_et_al_2024c_c]. Dada estas possibilidades, evidencia-se como uma ferramenta apta ao uso no contexto de feminização e masculinização. No entanto, este caso, diferente dos demais supracitadas que envolviam diferentes indivíduos, se trata do mesmo, de modo que o doador virtual será o próprio.

Uma videoaula explicativa acerca da técnica pode ser assistida de modo online.

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Fig. 24 Deformação anatômica.

Uma malha única, composta pelo crânio completo e pelo tecido mole do indivíduo é configurada (Fig. 24, A) e o ajuste é efetuado regionalmente, por meio de um corte ou Clipping Border (Fig. 24, B). O primeiro ajuste é feito na região do mesmo, utilizando o Edit Mode do Blender, selecionando uma vértice (Fig. 24, C) e deslocando-a, com influencia das vértices vizinhas, de modo que o deslocamento deforme a estrutura apenas relgionamente, adequando-a ao estado pós-operatório digital (Fig. 24, D).

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Fig. 25 Animação dos estados via Shape Keys. A) Estado inicial sem ajuste, com o Value em 0. B) Estado final com os ajustes e o Value em 1.

Diferente da deformação por osteotomia, que utiliza as peças ósseas como parâmetro de ajuste estrutural e portanto já funciona diretamente via Timeline e movimentação interativa na 3D View; a deformação anatômica depende do ajuste no campo Value, para animar o pré e pós em um primeiro momento (Fig. 25).

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Fig. 26 Deformação anatômica finalizada e animada na Timeline, ambos os modelos estão na cena, sendo o estado inicial no quadro 1 (A) e o estado final, ou seja, o pós cirúrgico no quadro 100 (B).

Se o usuário desejar, pode unificar todas animações na Timeline, de modo que ele possa visualizar a evolução do pré e pós diretamente por lá. Na imagem de exemplo os dois modelos da cabeça podem ser visto aninamos: o por osteotomia e o via deformação anatômica (Fig. 26).

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Fig. 27 A) Estado inicial. B) Estado final ou pós ciúrgico.

Embora se tratem de duas abordagens diferentes, ao final do processo a técnica de ostetotomia digital e a de deformação anatômica convergiram para um resultado compatível (Fig. 27). Esta compatibilidade também foi observada no âmbito da reconstrução facial forense, posto que o traçado do perfil da face a partir de marcadores de espessura de tecido mole e projeção nasal geralmente são muito semelhantes ao perfil advindo da deformação anatômica [Moraes_et_al_2024_c].

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Fig. 28 A) Pré e pós sobrepostos com as setas em pink demonstrando o significativo deslocamento. B) Detalhes estruturais evidenciando o erro mínimo entre os modelos.

Um fato que merece atenção neste trabalho é que, ao se observar detlhadamente o deslocamento estrutural (Fig. 28, A), percebe-se que a deformação do mento não respeitou o exato espaço daquele ajustado via osteotomia, distanciando-se um pouco mais de um milímetro (Fig. 28, B-a,b). Mesmo assim a diferença na parte mais extrema do queixo foi menor do que 2 milímetros (Fig. 28, B-c). Em linhas gerais, mesmo com pequenas imprecisões de ajuste, as técnicas geram um resultado muito próximo uma da outra.

Important

Um vídeo demonstrativo curto das duas técnicas supra abordadas pode ser assistido de modo online.


Possibilidades Complementares

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Fig. 29 Colocação de próteses e impacto estrutural com a deformação anatômica.

A deformação anatômica funciona muito bem para a simulação volumétrica de próteses. É apenas necessário que se façam ajustes estruturas para que a mesma se encaixe no crânio (Fig. 29, A-D), depois é efetuada a deformação para compatibilizar com o volume do pós-cirúrgico (Fig. 29, E-F). Com essas intervenções e as configurações supramencionadas, é possível ver o pré e o pós de maneira interativa (Fig. 29, G-J).

Além das questões já abordadas, é possível ainda ajustar estruturas como a glabela e a proeminência laríngea, deformando a malha com os Shape Keys, mas não apenas isso.

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Fig. 30 Inserção capilar digital.

A inserção capilar ou o ajuste do couro cabeludo também podem ser configurados. Para isso é elegida a área de interesse (Fig. 30, B), os fios são penteados digitalmente para se equipararem aos demais (Fig. 30, C) e ao final uma renderização é feita para a visualização do resultado (Fig. 30, D).

Referências Bibliográficas

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Façanha de Carvalho, E., Alkmin Paiva, G. L., Yonezaki, F., & Machado, G. G. (2021). Computer-Aided Surgical Simulation in Severe Atrophic Mandibular Fractures: A New Method for Guided Reduction and Temporary Stabilization Before Fixation. In Journal of Oral and Maxillofacial Surgery (Vol. 79, Issue 4, p. 892.e1-892.e7). Elsevier BV. https://doi.org/10.1016/j.joms.2020.11.011

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Lobo, F., Filho, L. I., Sigua-Rodriguez, E. A., da Silva, B. G., Tolentino, E. de S., Borges, Y. M., da Silva, M. C., Tonin, R. H., & Iwaki, L. C. V. (2022). Evaluation of ortogonblender software bone movement tools in bimaxillary orthognatic surgeries performed in dolphin software. In Journal of Stomatology, Oral and Maxillofacial Surgery (Vol. 123, Issue 4, pp. 417–421). Elsevier BV. https://doi.org/10.1016/j.jormas.2021.10.001

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[Moraes_et_al_2022_c]

Moraes, C., Pereira, H. M., Requicha, J. F., Alves, L., Alexandre-Pires, G., de Jesus, S., Guimarães, S., Ginja, C., Detry, C., Ramalho, M., & Pires, A. E. (2022). The Facial Reconstruction of a Mesolithic Dog, Muge, Portugal. Applied Sciences, 12(10), 4867. https://doi.org/10.3390/app12104867

[Moraes_et_al_2024_c] (1,2)

Moraes, C., Galassi, F. M., Sineo, L., Šindelář, J., Varotto, E., Mietlińska-Sauter, J., Antunes-Ferreira, N., Habicht, M. E., & Beaini, T. (2024). The anatomical bases of the 3D digital facial approximation of the Zlatý kůň 1 woman (ca. 43,000 BP). Anthropological Review, 87(2), 85–97. https://doi.org/10.18778/1898-6773.87.2.04

[Moraes_et_al_2024b_c]

Moraes, C., Varotto, E., Artico, M., Galassi, F. M., Forte, F., & Habicht, M. E. (2024). 3D facial approximation and endocast analysis of the Mummy of Minirdis (Ancient Egypt, ca. 2,300 Before Present). Morphologie, 108(362), 100781. https://doi.org/10.1016/j.morpho.2024.100781

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Moraes, C., Krenz-Niedbała, M., Łukasik, S., & Prada, C. S. (2024). Forensic facial approximation of an individual with achondroplasia from medieval cemetery in Central Europe. Digital Applications in Archaeology and Cultural Heritage, 32, e00301. https://doi.org/10.1016/j.daach.2023.e00301

[Salazar_et_al_2022_c]

Salazar-Gamarra, R., Cárdenas-Bocanegra, A., Masch, U., Da Costa Moraes, C. A., Seelaus, R., Lopes Da Silva, J. V., & Lauria Dib, L. (2022). Color translation from monoscopic photogrammetry +ID Methodology into a Polyjet final 3D printed facial prosthesis. In F1000Research (Vol. 11, p. 582). F1000 Research Ltd. https://doi.org/10.12688/f1000research.111196.1

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Sobral, D. S., Duarte, D. W., Dornelles, R. F. V., & Moraes, C. A. C. (2021). 3D Virtual Planning for Rhinoplasty Using a Free Add-On for Open-Source Software. In Aesthetic Surgery Journal (Vol. 41, Issue 8, pp. NP1024–NP1032). Oxford University Press (OUP). https://doi.org/10.1093/asj/sjab085

[Taub_2024_c]

Taub, B. (2024). Injured tortoise zooms around on new wheels thanks to 3D-printed prosthesis. IFLScience. https://bit.ly/4eWxmKN