A Aproximação Facial 3D de São Vicente de Paulo

Cicero Moraes
3D Designer Especialista em Aproximação Facial Forense, Arc-Team Brazil, Sinop-MT

José Luís Lira
Doutor em Direito e Professor Adjunto da Universidade Estadual Vale do Acaraú, Sobral-CE

Paulo Eduardo Miamoto Dias
Perito Odontolegista da Polícia Científica de Santa Catarina, Florianópolis-SC

Marcos Paulo Salles Machado
Perito Legista Cirurgião-Dentista; Vice-diretor do Instituto Médico Legal Afrânio Peixoto- RJ; Professor da Universidade Veiga de Almeida, Rio de Janeiro-RJ

Thiago Leite Beaini
Cirurgião Dentista, Professor Assistente - Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia-MG

Marco Aurélio Guimarães
Médico, Professor Associado - Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), Ribeirão Preto - SP

Rodrigo Dornelles
Cirurgião Plástico, Núcleo de Plástica Avançada - NPA, São Paulo-SP

Paulo Henrique Bueno
Cirurgião Dentista, Sinop-MT

Ricardo Henrique Alves da Silva
Docente da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FORP-USP), Ribeirão Preto-SP

Everton da Rosa
Cirurgião BMF, Hospital de Base, Brasília-DF

ISBN: 978-65-00-47050-5

_images/VicenteDePaulo_oculto.jpg

O presente capítulo tem por objetivo apresentar o projeto de aproximação facial de São Vicente de Paulo, executado por uma equipe técnica multidisciplinar tendo como base inicial uma série de fotografias do crânio do santo, datadas na década de 1960. Aqui será abordada a história da figura religiosa, o processo de autorização de uso das imagens, a análise forense dos restos mortais disponíveis e por fim o processo de aproximação [A32] facial 3D.

Atenção

Este material utiliza a seguinte licença Creative Commons: Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0).

A Vida de São Vicente de Paulo

São Vicente de Paulo nasceu no dia 24 de abril de 1581, na aldeia Pouy, sul de Paris, sendo batizado no mesmo dia de seu nascimento, filho do casal de camponeses João de Paulo (Jean de Paul) e Bertranda de Moras. Aos dezenove anos, seguramente com a autorização do Papa por conta da idade, foi ordenado sacerdote, em 23 de setembro de 1600.

Rachel de Queiroz [A6], notória escritora brasileira resumiu com maestria parte da biografia do santo: “Camponês de nascimento, pastor na sua infância, prisioneiro de piratas e cativo de um alquimista árabe nos seus vinte anos, padre, postulante em Roma, confidente de S. Francisco de Sales e Santa Joana de Chantal, discípulo do Cardeal de Bérulle, preceptor daquele que foi depois o demoníaco e aventureiro Cardeal de Retz, esmoler da Rainha Margot, confessor ‘in extremis’ de Luiz XIII, diretor espiritual de Ana d’Áustria (…), esmoler-geral das galeras do Rei, intermediário de paz nas lutas da Fronda, fundador das congregações dos Lazaristas e das Irmãs de Caridade - chamou-se em vida Vincent-de-Paul. É o nosso São Vicente de Paulo. Mas, nos altares onde subiu, não é representado junto a reis nem rainhas - mas como um padre velho que abriga sob a capa duas crianças desvalidas. Pois o que fez um santo do camponês de-Paul, não foi a convivência dos grandes - foi a sua heróica virtude da caridade…”.

A virtude das mais documentadas de São Vicente de Paulo foi a caridade e para praticá-la fundou congregações e teve a ajuda de Santa Luísa de Marillac, que sendo viúva e orientada espiritualmente por ele se torna sua grande colaboradora na missão de evangelizar e praticar a supracitada virtude. Com Santa Luísa, em agosto de 1617, fundou as Damas da Caridade, hoje conhecidas como Associação Internacional de Caridades - AIC.

Em 8 de dezembro de 1617 criou as Confrarias da Caridade e, em 17 de abril de 1625, a Congregação da Missão, cujos membros são conhecidos como padres Lazaristas, ou padres vicentinos. Em 29 de novembro de 1633 fundou a Congregação das Filhas da Caridade ou Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo e, ainda, a mesma Companhia das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo. Foi essa a primeira congregação feminina que praticou atividade fora dos claustros, tendo uma forte vida de oração, acompanhada da caridade e do serviço ao próximo em hospitais, orfanatos, escolas etc.

São Vicente faleceu em Paris, a 27 de setembro de 1660, aos 79 anos, quatro dias depois de celebrar 60 anos de sacerdócio. Sessenta e nove anos depois foi beatificado e setenta e sete anos após, canonizado, em 16 de junho de 1737, há quase 285 anos.

Sobre a Autorização do Trabalho

Em agosto de 2015, em uma pesquisa de rotina, um dos autores (José Luís Lira) encontrou imagens em escala de cinza (preto e branco) da exumação de São Vicente de Paulo, realizada em 1960. Em outubro de 2015, os autores contataram o então Superior Geral da Congregação da Missão, Pe. Gregory George Gay, CM, solicitando a autorização de uso das imagens e, ainda, para a aproximação facial. Ele prontamente respondeu, via Secretário Geral da Congregação, informando que depois de ouvir o Postulador Geral, o uso das imagens deveria ser autorizado pelo responsável pelo site onde elas estavam e gentilmente deu votos de bom trabalho para a equipe.

Os negativos em preto e branco estão sob a guarda da DePaul University, em Chicago, nos Estados Unidos. Então, os autores enviaram um outro e-mail à DePaul University e a resposta veio do ex-Reitor daquela Universidade Vicentina e investigador sobre São Vicente, Pe. John E. Rybolt, despachando a autorização de uso das imagens e manifestando interesse em apreciar no resultado final assim que publicado.

Análise do Crânio

_images/Vicente_skull.jpg

Crânio de São Vicente de Paulo, capturado em diferentes posições

Inicialmente o projeto de reconstrução facial contava apenas com a participação de dois pesquisadores e não especialistas em medicina/odontologia forense. Assim que a autorização para o uso das imagens do crânio foram expedidas, os dois autores iniciais convidaram para o projeto uma série de especialistas que aceitaram analisar as imagens (Fig. 1), sem saber de quem se tratava, apenas munidos da informação que a peça era de um indivíduo (não foi informado o sexo) que havia falecido no século XVII.

O material digital foi analisado por 8 especialistas [A12] da área médica e odontológica e, apesar das limitações na resolução do material, foi possível levantar as informações de que se tratava do crânio de um homem de ancestralidade européia, de meia idade ou idade avançada, dotado de má oclusão classe III e com aparente perda óssea na região maxilar.

Descrição Técnica Detalhada

Aviso

A descrição aqui apresentada foi efetuada por análise utilizando apenas as imagens do crânio, sem informações acerca do indivíduo e antes da aproximação facial ser executada. A análise foi feita no ano de 2015 e a reconstrução foi finalizada no ano de 2022.

Histórico

Em correspondência recebida em 27 de dezembro de 2015, o Vice-Coordenador da Equipe Brasileira de Antropologia Forense e Odontologia Legal (EBRAFOL), Cícero Moraes, solicitou análise antropológica indireta de imagens de um suposto crânio, para fins de orientação a reconstrução facial 3D digital de contexto histórico-arqueológico. Apesar da identidade do crânio ser supostamente conhecida, esta informação foi ocultada na solicitação para fins de controle de viés. O acesso direto aos restos mortais foi inviável. Apenas imagens digitais do crânio foram enviadas via e-mail, juntamente com a solicitação de exame.

Quesitos

  • Os restos mortais são humanos?

  • Qual o número mínimo de indivíduos?

  • Qual o contexto do encontro dos restos mortais?

  • É possível estimar o perfil bioantropológico dos restos retratados?

  • Os achados sugerem compatibilidade com que perfil de indivíduo?

  • Com base nas imagens analisadas, qual foi a causa mortis?

  • Há elementos individualizantes indicativos de trauma ante mortem, estilo de vida ou outros fatores?

  • Há elementos de interesse para a reconstrução facial forense 3D?

Diferenciação da Espécie

As imagens mostram restos mortais morfologicamente compatíveis com a espécie humana. É possível identificar um crânio e uma mandíbula com aspectos humanos.

Número Mínimo de Indivíduos

As imagens exibem somente um crânio e uma mandíbula articulados, não sendo possível visualizar outros tipos de restos mortais, o que implica na estimativa do número mínimo de indivíduos, nas imagens enviadas, em um [A2].

Contexto dos Restos Mortais

As imagens sugerem um contexto compatível com o relatado, no caso uma exumação, onde se nota que pelo menos dois indivíduos manipulam os restos mortais. O polo cefálico documentado encontra-se esqueletizado e sem tecido mole biológico aderido. A mandíbula é articulada com o crânio manualmente. Há uma relativa integridade da mandíbula e do crânio, os quais encontram-se com a maior parte de sua estrutura preservada. Há material semelhante a fibras e que pode estar associado ao sepultamento. Enquanto observa-se a presença de fibras nas órbitas, arco zigomático, cavidade bucal e região cervical, o tecido claro cobre parte dos restos e forra o local onde os mesmos repousam. Pelo grau de conservação e limpeza do tecido de cor clara, é pouco provável que o mesmo tenha sido recuperado do sepultamento primário.

Exame Odontológico (Indireto)

O exame odontológico restou prejudicado, pois além das imagens possuírem baixa resolução, nem todas as partes dos arcos dentários puderam ser visualizadas.

Abreviações:

  • VP = Visualização prejudicada;

  • AP = Avaliação prejudicada.

Exame Odontológico - Superior Direito

Dente

Notação Dental

Comentário

Incisivo central

11

VP.

Incisivo lateral

12

VP.

Canino

13

VP.

1º pré-molar

14

VP.

2º pré-molar

15

VP.

1º molar

16

VP.

2º molar

17

VP.

3º molar

18

VP.

Exame Odontológico - Superior Esquerdo

Dente

Notação Dental

Comentário

Incisivo central

21

Presença de alvéolo vazio. Perda post-mortem.

Incisivo lateral

22

VP.

Canino

23

VP.

1º pré-molar

24

VP.

2º pré-molar

25

VP.

1º molar

26

Ausente.

2º molar

27

Ausente.

3º molar

28

Ausente.

Exame Odontológico - Inferior Direito

Dente

Notação Dental

Comentário

Incisivo central

31

Presente. AP.

Incisivo lateral

32

Presente. AP.

Canino

33

Presente. AP.

1º pré-molar

34

Presente. AP.

2º pré-molar

35

VP.

1º molar

36

Presente. AP.

2º molar

37

VP.

3º molar

38

Presente. AP.

Exame Odontológico - Inferior Esquerdo

Dente

Notação Dental

Comentário

Incisivo central

41

Presente. AP.

Incisivo lateral

42

Presente. AP.

Canino

43

VP.

1º pré-molar

44

VP.

2º pré-molar

45

VP.

1º molar

46

VP.

2º molar

47

VP.

3º molar

48

VP.

Embora não seja possível a visualização integral do arco dentário inferior, a mandíbula está com sua maior parte integra (ramos bilaterais, corpos bilaterais e região de sínfise mentual), há reabsorção óssea alveolar na porção posterior do terceiro quadrante, indicando perda dentária ante mortem na região. A maxila apresenta um dano em sua porção anterior, com perda de tábua óssea vestibular desde a crista alveolar até a região periapical, com extensão aproximada de todo o arco superior. Há exposição do osso esponjoso subjacente,não sendo possível estimar o meio/instrumento lesivo, a presença de patologias, nem a natureza do dano, se ante, peri ou post mortem. Na porção posterior do segundo quadrante há ausência dentária com significativa reabsorção alveolar, sugerindo perda ante mortem.

Perfil Antropológico (Indireto)

Estimativa do Sexo

Nas imagens foi possível a visualização de algumas regiões que expressam dimorfismo sexual [A2]. O exame qualitativo atribuiu escores de 1 a 5 para cada parâmetro, sendo que 1 indica uma característica muito feminina e 5 uma característica muito masculina, sendo que os escores intermediários apontam para características que são femininas (2), indeterminada (3) e masculinas (4).

Dos seis parâmetros analisados, um apresentou característica indeterminada e cinco apresentaram aspecto masculinizado:

  • Glabela e arcos supraciliares: 5;

  • Processo mastóide: 3;

  • Alargamento do ângulo mandibular: 4;

  • Crista supramastóide: 4;

  • Ângulo mandibular: 4;

  • Tamanho e forma do mento: 4.

Observa-se também uma fronte com aspecto inclinado para posterior, assim como rugosidades massetéricas no ângulo da mandíbula, traços compatíveis com o sexo masculino.

Estimativa de Ancestralidade

O exame qualitativo de ancestralidade indireto baseou-se na presença ou ausência de características craniofaciais visíveis nas imagens. Dada a limitação do material examinado, as análises basearam-se na abordagem tradicional antropológica, a qual divide a espécie humana em três principais grupos ancestrais: europeus, africanos e asiáticos.

O neurocrânio apresenta-se com um contorno sagital arrendondado e arqueado, com sua altura representando uma porção significativa de seu comprimento, enquanto o esplancnocrânio apresenta órbitas arredondadas, abertura piriforme estreita em relação à largura biorbital, ossos nasais alongados, de formato retilíneo e projetados em direção anterior, ossos zigomáticos de tamanho moderado em relação ao terço médio da face e mento proeminente. Todas as características elencadas são compatíveis com a ancestralidade europeia. Não foram visualizadas características qualitativas compatíveis com outros grupos ancestrais.

Estimativa de Idade

O exame de idade restou prejudicado pela escassez de elementos para o embasamento das análises. Não foi possível avaliar as imagens por métodos dentários ou radiográficos, tampouco foi possível aplicar qualquer metodologia de modo completo.

No lado esquerdo do crânio há indícios de fechamento em curso das suturas na região do pterion, sutura coronal, sutura escamosa e sutura lambdoide. O ângulo mandibular apresenta-se relativamente oblíquo, com aproximadamente 130º, caractere compatível com indivíduo adulto.

O aspecto geral dos restos analisados permite atestar que as proporções de tamanho entre o neurocrânio e o esplancnocrânio são compatíveis com um indivíduo adulto, ou seja, com seu desenvolvimento craniofacial completo. Além disso, há desgaste dentário discreto nos dentes incisivos inferiores, perda óssea periodontal discreta na mesma região e reabsorção óssea alveolar significativa nas áreas com ausências dentais na porção inferior esquerda, parâmetros que indicam degeneração própria da idade adulta a meia idade ou idade avançada.

Da análise observa-se que as características elencadas são compatíveis com um indivíduo adulto pertencente, no mínimo, à faixa etária de meia idade, podendo também pertencer a uma faixa etária de idade avançada. Não é possível estimar uma faixa etária máxima com base no material analisado.

Da Causa Mortis

Devido à baixa resolução das imagens e falta de visualização dos restos mortais em mais vistas, não foi possível verificar nas imagens analisadas sinais que possam estar diretamente relacionados com o modo e a causa de morte deste indivíduo. O exame da região ântero-vestibular da maxila está prejudicado pela baixa resolução das imagens. Com base no material estudado, a causa mortis permanece indeterminada.

Elementos Individualizantes de Trauma ante mortem, Estilo de Vida e Afins

Pela baixa resolução das imagens, não foi possível identificar elementos relacionados a traumas ante mortem, sinais de hábitos parafuncionais e alterações ligadas à ocupação ou estilo de vida que possam ser de interesse à individualização dos restos mortais.

Elementos de Interesse para a Aproximação Facial

O formato do crânio em sua porção anterior é do tipo pentagonoide, o que sugere uma face do tipo quadrado na porção análoga (terço superior da face e calvária), quando observada em norma frontal. O exame da mandíbula em vista lateral indica ângulo mandibular obtuso, maior do que 125º, e processo coronoide alto, o que sugere que as porções média e inferior da face tenham seu correspondente de formato oval ou triangular [A35].

A análise da porção nasal não indica assimetrias severas, tampouco trauma ante mortem aos ossos nasais. Contudo, o exame completo da região está comprometido pelos danos constatados na região ântero-vestibular da maxila, o que impede uma análise completa da presença, formato e tamanho da espinha nasal anterior, bem como do aspecto e posição da porção inferior da abertura piriforme. O exame das porções laterais da abertura piriforme permite estimar adequadamente a largura do nariz, além da posição e tamanho das asas do nariz.

As imagens permitem a localização aproximada das cristas lacrimais e tubérculos malares, pontos de reparo anatômico importantes para o posicionamento dos cantos medial e lateral dos olhos. As imagens também permitem a localização dos pontos supraorbitário e infraorbitário, de interesse para a estimativa da protrusão dos globos oculares e posicionamento na órbita. O arco supraciliar definido e pronunciado sugere uma sobrancelha que acompanhe o formato do mesmo [A35].

Supondo que a posição da articulação manualmente feita entre a mandíbula e o crânio mostrada nas imagens esteja adequada, a altura da rima da boca pode ser estimada pela superfície incisal dos dentes ântero-inferiores. A largura da boca resta prejudicada pela ausência dos dentes caninos, porém poderá ser estimada indiretamente pelo método da borda medial da íris, quando os globos oculares forem posicionados. A espessura da zona vermelha dos lábios também é prejudicada quando estimada pelo método de medição do comprimento cervico-incisal da porção de esmalte, para os dentes superiores, mas pode ser estimada para os dentes inferiores [A35].

O aspecto das marcas de inserções musculares do m. depressor do ângulo da boca observadas no mento sugere que os ângulos da boca tendem a estar posicionados em direção inferior. Igualmente, para os músculos zigomáticos, tal aspecto sugere a presença do sulco nasolabial. No lado esquerdo da face este aspecto é especialmente marcado pela ausência dos dentes posteriores em ambos os arcos dentários. Com isto, há perda de dimensão vertical, conferindo aspecto de menor distância entre mento e nariz, com projeção da boca para “dentro” da face, bem como perda de volume na região jugal. Tal impressão se dá devido ao fato da perda de dimensão vertical ocasionar numa compressão dos lábios, que perderão parte de seu volume aparente. Outro fator que contribui para esta característica é a estimativa de idade dos restos mortais, mais compatível com um adulto entre meia idade [A30] e idade avançada, e que indica uma maior prevalência de rugas faciais, sejam elas do tipo linha ou sulco [A35].

A análise anatômica da porção anterior do corpo da mandíbula sugere que o mento do indivíduo era largo, projetado e quadrado. Ao observar a articulação da mandíbula com o crânio, nota-se que há prognatismo mandibular. Apesar da destruição da porção ântero-vestibular da maxila, a estimativa de seu volume reconstituído pode ser feita por meio de um recobrimento virtual do osso esponjoso exposto até um volume compatível com o osso compacto da vestibular. Um parâmetro de interesse para guiar este labor é o alvéolo vazio do dente 21, o qual pode auxiliar na estimativa do volume ósseo perdido ao seu redor. Neste aspecto, a maxila reconstituída teria importância na aparência dos tecidos moles da face, não havendo muita diferença prática em termos de reconstrução facial, caso a oclusão do indivíduo fosse compensada (topo a topo) ou em Classe III de Angle com dentes superiores lingualizados em relação aos inferiores. Em suma, o esplancnocrânio sugere que o perfil facial tenha uma considerável tendência a ser côncavo, com projeção mandibular.

Embora de menor interesse, para a reconhecibilidade da face reconstruída, o aspecto geral das orelhas pode ser estimado a partir de observações do crânio. O eixo vertical da orelha tem correlação com a direção do ramo ascendente da mandíbula, enquanto seu tamanho vertical pode ser estimado a partir da distância entre o canto lateral do olho e o canto da boca. Para a largura da orelha, convenciona-se considerar a metade da distância supracitada [A35].

Discussão (da Análise dos Ossos)

No caso em tela, observa-se uma marcante restrição no material disponível para exame, que à parte de ser virtual, é apresentado em formato de imagens bidimensionais com resolução severamente limitada. Faz-se mister frisar o grau de dificuldade sob o qual as análises foram executadas, o viés introduzido pela falta de padronização no registro fotográfico, ausência de escalas métricas, sua baixa resolução e limitação da precisão dos métodos de análise e seus resultados.

Dada a diferença de tamanho entre as imagens enviadas, deve-se considerar a hipótese de que as mesmas são o resultado de recortes realizados para evidenciar apenas o crânio a ser analisado, bem como ocultar aspectos que poderiam levar à identificação do indivíduo examinado, introduzindo viés nas análises pré-reconstrutivas. Não obstante, o estudo de diversos aspectos de interesse à reconstrução facial pôde ser realizado.

Os trabalhos de cooperação para reconstrução facial forense 3D digital de contextos históricos/arqueológicos não raro envolvem a impossibilidade de acesso direto ao substrato osteo-biológico a ser analisado. Esta limitação termina por impor à equipe de antropologia forense a condição de realizar seu trabalho com base em dados colhidos por outros pesquisadores, tomando-os como premissas para as análises subsequentes. Todavia, não se pode desconsiderar que novos fatos podem surgir a partir dos estudos antropológicos, inclusive informações que podem contrapor-se aos fatos previamente tomados como premissas. Disto resulta uma preocupação em se utilizar uma linguagem que seja compatível com esta condição, sem que isto signifique desconfiança em relação aos dados apresentados.

Considerando que os restos apresentados sejam ósseos, o protocolo padrão em antropologia forense foi aplicado, ainda que com restrições próprias do material analisado. Disso resulta que as imagens documentam restos mortais compatíveis com o de um ser humano, em situação compatível com uma exumação. Sua análise odontológica, apesar de prejudicada, pôde ser útil para a estimativa de parâmetros de interesse para a reconstrução facial, como; a perda de volume de tecido mole no lado esquerdo da face, determinada pela perda de dimensão vertical associada à ausência de dentes posteriores; a presença de um alvéolo dentário vazio na região anterior da maxila, que apesar de haver sofrido uma perda de estrutura, pode ser digitalmente reconstituída com considerável compatibilidade anatômica em pelo menos uma das imagens apresentadas. Embora possa parecer que ainda haja a presença de raízes residuais, dentes com diferentes estados de conservação e outras particularidades, qualquer afirmação neste sentido, com base no material disponível, seria de caráter altamente especulativo. Chama a atenção os bons estados de conservação dos restos estudados, que embora possuam dano na região maxilar, apresentam integridade de praticamente todas as outras estruturas fotografadas.

Dado que o escopo deste estudo não engloba a identificação humana, a estimativa do perfil antropológico com vistas à reconstrução facial forense foi abordada com maior profundidade. A variação humana é a base biológica para a diferenciação de parâmetros entre indivíduos. Para todas as metodologias aplicadas, há sempre um fundamento biológico resultante da interação entre genética e meio ambiente.

Para a ancestralidade, o “pool” genético das populações que migraram a partir da África e permaneceram isoladas por longos períodos, com diferenças entre latitudes, alimentação, exposição à radiação ultravioleta e estilos de vida dividiu a raça humana em 3 grandes grupos: africanos, europeus e asiáticos. Há de se considerar que esta divisão é ampla e traz muitas variações dentro de cada ramo ancestral. Por exemplo: a ancestralidade europeia abrange desde as populações das regiões nórdicas, ibéricas, passando pelas populações mediterrâneas e por fim considerando muitos grupos populacionais do Oriente Médio. Dos ossos do corpo humano, o crânio é o sítio de preferência para as análises de ancestralidade. Assim, as características identificadas no crânio são compatíveis com a ancestralidade europeia, mas uma diferenciação mais precisa depende de um estudo através de uma perspectiva geográfica, a qual poderia ser realizada com estudos quantitativos, o que não foi possível neste caso.

Como o caso em tela é de cunho histórico/arqueológico, após a reconstrução básica da face, os dados conhecidos do contexto podem ser explorados para caracterização compatível com os dados populacionais da região geográfica de onde o indivíduo seja oriundo, ou ainda, compatível com os ancestrais do indivíduo (pais), caso sejam conhecidos. Este tipo de abordagem, apesar de impraticável em casos forenses, pode ser aplicado em casos históricos, sem que as características faciais determinadas pelo arcabouço ósseo do crânio sejam alteradas. Outras informações úteis em casos de indivíduos identificados ainda podem abranger aspectos não estimáveis pelo exame ósseo, como indumentária, cor dos olhos, tipo e estilo de cabelos, informações médicas que causem alteração da aparência facial sem manifestações ósseas e outras características individuais relatadas em crônicas da época, caso existentes.

A estimativa do sexo fundamenta-se no fato de que homens crescem mais e durante mais tempo que mulheres, devido a fatores hormonais que causam uma diferença de tamanho. Também há uma diferença de função, dado que o corpo feminino é preparado para a gestação. Voltando ao primeiro aspecto, os caracteres avaliados basicamente lidam com a expressão de diferenças de tempo e intensidade de crescimento no complexo craniofacial. Por isso são de interesse o tamanho da glabela, do processo mastóide, a presença e extensão de marcas de inserção muscular (que indicam musculatura mais desenvolvida) [A2]. O sítio de preferência para a estimativa do sexo em indivíduos adultos é o conjunto pelve mais crânio. Em segundo lugar, a pelve isolada e em terceiro o crânio isolado. Assim, as características analisadas são compatíveis com o sexo masculino, embora haja sempre uma margem de erro associada a este método. Alguns autores estimam que haja um índice de acerto de aproximadamente 92% quando se analisa apenas o crânio [A35].

A estimativa de idade baseia-se no desenvolvimento e envelhecimento do corpo humano com base em indicadores biológicos que: sofram mudanças unilateralmente com a idade; tenham correlação com a idade cronológica; sofram mudanças aproximadamente na mesma idade em todos os indivíduos de uma população; e que tenham taxas de erro intra e inter-observador conhecidas. Os métodos baseados em análises dentárias são os que apresentam faixas etárias estimadas com intervalos menores (média entre 5 a 7 anos em adultos, chegando a meses em crianças e adolescentes), seguidos pelos métodos ósseos (intervalos de aproximadamente 10 anos). O único método que pôde ser parcialmente aplicado foi o de análise de fechamento de suturas cranianas, o qual pressupõe que as articulações entre os ossos do crânio perdem tecido fibroso e são substituídas por tecido ósseo mineralizado ao longo do tempo. Este processo inicia-se aos 20 anos e estende-se indefinidamente até o fechamento progressivo das suturas, o qual pode nunca completar-se, inclusive. Dada a grande variabilidade entre os sexos e entre as diferentes populações, é recomendada muita cautela quando este tipo de análise é realizada. Assim, para este tipo de análise, pôde-se utilizar uma classificação um tanto abrangente, porém adequada para a situação, qual seja, a diferenciação entre as faixas etárias: criança, adolescente, jovem adulto, adulto de meia idade ou adulto idoso. Ao se analisar as suturas em conjunto com o aspecto geral do crânio, observou-se uma compatibilidade mínima de idade com as faixas etárias adulto de meia idade e adulto idoso, sendo que não foi possível estimar uma faixa etária máxima.

Não foi possível identificar fatores que possam estar associados à causa e maneira de morte, o que resulta em sua indeterminação com base na análise das imagens fornecidas. Igualmente, outros fatores individualizantes relacionados a traumas ante mortem, sinais de hábitos parafuncionais e alterações ligadas à ocupação ou estilo de vida não puderam ser identificados nas imagens enviadas, o que não significa necessariamente que os mesmos não possam estar presentes nos restos ósseos.

Não obstante, muitos fatores de interesse para a aproximação facial puderam ser analisados. Dado que o crânio funciona como a moldura e arcabouço rígido que guia o processo reconstrutivo, a observação dos parâmetros relatados acima é de valia para a reconstrução facial. Como as inferências têm base anatômica, certamente a face reconstruída seguindo estes parâmetros será individualizada, reprodutível e com viés conhecido e controlado (Wilkinson, 2004). Há de se aclarar que o processo reconstrutivo da face com base na análise antropológica ainda não consegue atingir resultados onde a face aproximada e a face verdadeira quando comparadas sejam idênticas, mas estudos cegos feitos em indivíduos vivos (vale dizer, parâmetros para comparação) sugerem que existe uma importante compatibilidade de formato e tamanho [A14].

Conclusão (da Análise dos Ossos)

A análise das imagens resultou prejudicada pela baixa resolução, porém supondo que tratem de restos ósseos, conclui-se que mostram despojos de um indivíduo da raça humana, de ancestralidade europeia, sexo masculino, cuja faixa etária seja compatível com adulto de meia idade ou adulto idoso.

A Digitalização 3D do Crânio e a Aproximação Facial

Uma vez que os dados acerca do crânio estavam disponíveis, a aproximação facial poderia ser efetuada. No entanto, o projeto não recebeu atualizações desde de 2015, sendo finalmente executado no começo de 2022, ou seja, quase seis anos e meio depois. Nesse período os pesquisadores tiveram a oportunidade de melhorar as técnicas utilizadas e desenvolver outras novas, sendo assim o projeto aqui abordado conta com um amadurecimento significativo em relação ao ferramental disponível há mais de meia década, quando a análise do tópico anterior fora estruturada.

_images/Vicente_aprox_misc.jpg

Capturas de tela do processo de aproximação facial

O trabalho de aproximação facial partiu da digitalização do crânio do santo, utilizando como referência uma série de fotografias do mesmo. As fotografias permitem ao modelador visualizar a volumetria tridimensional da peça por ângulos diferentes viabilizando assim a reconstrução da anatomia, essa abordagem fora utilizada na reconstrução facial do falso Sófocles [A11] e no crânio KV-55-Akhenaton [A7], em ambos os casos, assim como ocorreu com São Vicente de Paulo, os especialistas contavam apenas com imagens do crânio, não restando outros meios para a digitalização dos mesmos.

_images/Vicente_aprox.jpg

Etapas da aproximação a partir do ponto de vista de uma das fotos

As fotografias são importadas em um cenários 3D, servindo cada uma como pano de fundo para uma câmera (Fig. 3-A). Um crânio de um doador virtual [A1] é importado de modo a ser deformado, utilizando como referência as fotografias, até que o crânio tome a forma mais compatível possível com o alvo da deformação (Fig. 3-B e Fig. 2 parte superior). O crânio tridimensional serve como base para a colocação dos marcadores de espessura de tecido mole [A5], além de projeções que permitem a projeção nasal (Fig. 3-C) baseada em uma metodologia mista, criada a partir de técnicas clássicas e dados estatísticos de indivíduos vivos [A23]. Assim que os pontos e traçados são efetuados e uma vez que sabe-se o volume geral do crânio, o objeto tridimensional representando a peça anatômica pode ser ocultada da cena, de modo que projeção tridimensional da face aproximada seja vista em relação a foto utilizada (Fig. 3-D), isso permite aos especialistas analisar detalhes da estrutura original do crânio que não são refletidos na modelagem 3D. O processo segue com as etapas posteriores de reconstrução facial no add-on ForensicOnBlender (Fig. 3-E e Fig. 2 parte inferior), já documentadas [A28], de modo que a face final é gerada a partir de tal processo (Fig. 3-F). A face resultante é desprovida de expressão, assim o nariz e os lábios encontram-se em uma posição neutra. Como se trata de um indivíduo falecido aos 79 anos, os autores exploraram os limites externos do desvio padrão proposto pelo estudo estatístico da projeção nasal, uma vez que tal estrutura nos idosos apresentou um volume e caimento maior do que a média [A23], o que é corroborado pelo estudo de Windhager et. al 2019 [A36]. Segundo a iconografia clássica do santo, a sua imagem é comumente representada com um leve sorriso, o que faz com que o nariz sofra uma pequena deformação estrutural [A10] [A9], levantando as asas e dando a impressão de rebaixamento, por conta do levantamento dos lábios (F).

_images/VicenteDePaulo.jpg

Imagem final da aproximação facial de São Vicente de Paulo

A geração da imagem final (Fig. 4) implica ainda na pigmentação por pintura digital da superfície da pele, bem como na colocação de pêlos, cabelos e a configuração das marcas de expressão por escultura digital. A indumentária respeitou a iconografia clássica que é composta por um solidéu de sacerdote, preto, uma batina preta, com gola clergyman francês branco e uma capa usada pelo Santo devido ao frio francês. A iluminação buscou evidenciar o relevo facial, com uma forte luz lateral e pelas costas, criando um contraste que lembra por alto um halo, o que lembra a santidade da figura histórica e religiosa cujo a face fora aproximada pelas técnicas forenses.

_images/Vicente_compara.jpg

Comparação entre a iconografia clássica e a aproximação facial

Posteriormente, a pintura atribuída a Simon François de Tours (1606-1671) foi comparada com a aproximação facial (Fig. 5) onde ficou clara a compatibilidade estrutural da face, principalmente no nariz rebaixado por conta da idade e da má oclusão classe III. A pintura, ainda que tenha sido executada por um artista pleno de técnica, pode não refletir necessariamente na real perspectiva do espaço, ou ainda, como se pode atestar na parte inferior do rosto, a santo poderia gozar de boa alimentação e/ou robusta compleição. Já a reconstrução utilizou um IMC médio (60+ anos), o que pode ter cooperado para um rosto ligeiramente mais fino na região inferior. A pintura também não aparenta retratar um indivíduo com idade compatível com aquela executada na aproximação (79), gerando assim uma leve discrepância estrutural. A despeito da falta de dados mais concretos acerca do(s) retrato(s) do santo pintado(s) em vida, é inegável que a aproximação refletiu as características presentes na iconografia clássica de Vicente de Paulo.

Conclusão

O projeto de aproximação facial aqui abordado, uniu uma equipe de 10 especialistas de áreas diferentes e foi bem sucedida em utilizar fotografias com média resolução para analisar as características antropológicas e estruturais de um crânio atribuído a São Vicente de Paulo. Ainda que a análise tenha encontrado muitas limitações, as informações colhidas nas fotografias permitiram que o trabalho fosse executado e resultasse em uma face muito compatível com a iconografia clássica do santo, evidenciando uma compatibilidade inconteste entre a face daquele com o crânio fotografado na década de 1960.

Agradecimentos

Todo este trabalho não teria sido possível sem o aval da Congregação da Missão por meio de seu então Superior Geral, Pe. Gregory George Gay, por isso apresentamos em sua pessoa, embora não sendo mais o superior, os nossos agradecimentos a todos os Padres da Missão ou Lazaristas. Agradecemos, também, ao Pe. John E. Rybolt, ex-Reitor da DePaul University, em Chicago, nos Estados Unidos e um dos maiores investigadores da vida do Santo, por nos autorizar o uso das imagens. Nossa gratidão, ainda, a todos os continuadores da obra do Santo, especialmente às Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo. Ao Dr. Richard Gravalos, doador virtual da tomo do crânio utilizado para a digitalização apresentada neste trabalho. Ao jornalista Jackson Erpen da Vatican News, pela parceria constante na apresentação das faces dos santos reconstruídos, o agradecimento se estende ao também jornalista Silvonei Protz, diretor da equipe brasileira da Rádio Vaticano, ao Presidente do Regional Nordeste 1 da CNBB, Dom José Luiz Gomes de Vasconcelos, ao jornalista Elcio Braga do jornal O Globo e aos envolvidos com a apresentação dos resultados da pesquisa, Profa. Antonia Ladislau de Sousa, da Fundação Cariri, Padre José Vicente de Alencar Pinto, Administrador Diocesano da Diocese de Crato, Lugar-Tenência da Ordem Equestre do Santo Sepulcro no Rio de Janeiro e, ainda, a todos os que apoiaram este trabalho que foi quase uma “missão”, tornar conhecida essa aproximação do patrono de todas as obras de caridade da Igreja Católica Apostólica Romana.